Quando Alice Yura abriu a exposição Um ato fotográfico, na Pinacoteca de São Paulo, ficou praticamente o tempo todo sentada no estúdio, sendo fotografada pelo público. "Passou um filme na cabeça", diz. Não à toa. A Pina foi uma das primeiras instituições de arte que ela conheceu quando veio a São Paulo ainda estudante, vinda de Campo Grande. Na época, entrou para ver um trabalho de Humberto Espíndola e saiu com uma pergunta na cabeça: "Será que algum momento também vou conseguir fazer com que meu trabalho chegue a essas grandes instituições?" A resposta tem chegado repetidas vezes. Em abril, foi mais uma vez. Alice se tornou a primeira artista de Mato Grosso do Sul a ter uma exposição individual, só para ela, na Pinacoteca de São Paulo. A exposição, com curadoria de Thierry Freitas, ocupa a Galeria Praça do edifício Pina Contemporânea até 13 de setembro deste ano. Uma das partes que mais tem chamado a atenção do público é um estúdio fotográfico completo, com refletores, cadeiras e luz profissional, montado no meio da galeria e aberto para qualquer visitante usar. A ideia veio da própria Alice, que desde o início queria uma exposição em que o público pudesse agir, não apenas olhar. "Os estúdios desempenham um papel social e político muito forte. Quem são as pessoas que acessam um estúdio de fotografia?", ela questiona ao Lado B . A Pinacoteca tem entrada gratuita aos sábados, o que tem garantido muita gente, que, em muitos casos, nunca fizeram uma foto em estúdio profissional. "As pessoas que vierem aqui e que nunca fizeram uma foto num estúdio. Elas não têm essa oportunidade normalmente." O estúdio da exposição, para ela, se difere de instalações fotográficas que viraram moda em exposições contemporâneas. "Ele já carrega um peso de memória nas pessoas que não permite você se colocar de uma forma tão despretensiosa. Ele te impõe uma postura, um certo comportamento físico que está engrenado no nosso imaginário." No dia da abertura, por exemplo, uma família inteira sentou junta para fazer uma foto. "Essa coisa de que existe uma ritualização da imagem que a gente perdeu um pouco por conta das redes sociais." Ela menciona também que, antigamente, era muito mais comum que as fotos impressas fossem enviadas pelas pessoas com dedicatórias atrás, por exemplo. A recepção da exposição tem surpreendido a artista, que desde a abertura, tem recebido mensagens de visitantes dizendo que querem imprimir fotos, montar álbuns, resgatar coisas guardadas em gavetas. "Tem ativado lugares que são preciosos pras pessoas e que, no automatismo do dia a dia, às vezes a gente não percebe como têm valor." Foto Yura: a família que fotografava A exposição é também uma história de família. Alice cresceu em Aparecida do Taboado rodeada de fotógrafos: seu avô, seu pai e seus tios fundaram o Foto Yura em 1958, um estúdio que virou ponto de encontro social na cidade por mais de seis décadas e fechou no ano passado. Câmeras antigas, negativos e equipamentos originais do estúdio estão na exposição. "Isso faz parte de uma memória coletiva que não diz respeito à minha própria história exclusivamente." Alice é mulher trans e carrega, hoje, a assinatura fotográfica da família. "Existe uma ruptura de gênero dentro dessa pesquisa e esse reposicionamento." A mostra se divide em três partes. A primeira traz retratos feitos em câmera Instax de Alice e de familiares, uma prática que vai mudando conforme as pessoas retratadas vão morrendo. A segunda é o estúdio, com álbuns de família dispostos numa mesa para que os visitantes folheiem. No centro da sala há também uma obra que para o visitante desavisado parece um retrato de família comum, mas, dependendo do ângulo de onde se olha, máscaras se sobrepõem aos rostos. "É um ato de celebração, contraposto com dados de mortes e expectativa de vida de mulheres trans e travestis", descreve Alice. A terceira parte, a série Restos de Carnaval, é um ensaio feito durante a pandemia com classificação de 14 anos, em que Alice reencena figuras da história da arte e da Antiguidade a partir do próprio corpo. Há ainda, espalhados pela exposição, fotografias com espaço para escrita no verso — uma referência ao hábito, quase extinto, de mandar uma foto para alguém com uma mensagem escrita à mão. A montagem começou em agosto do ano passado. Alice não queria que fosse uma exposição monótona. "As exposições de fotografia tendem a ser muito estáticas, muito planificadas, diferentes da pintura, que cria dimensões pela camada de cor." Daí a aposta no formato instalativo, nos álbuns, no estúdio aberto. "Queria que fosse uma coisa pra pensar fotografia de uma forma um pouco mais expandida." O que a foto de celular não faz Alice não é contra a fotografia feita por celular, mas vê uma diferença. Para ela, o celular criou uma forma mais rápida e menos cerimonial de registrar momentos, e isso esvaziou algo que não foi substituído por outra coisa. "A gente se distanciou desse lugar, mas esse lugar ficou vazio. Quando as pessoas acessam isso aqui, elas falam: isso é tão importante pra mim. Eu quero poder olhar o meu álbum de fotografia." O curador Thierry Freitas completa: "No início da era digital, parecia que as fotos seriam eternas — estão na nuvem, vão durar para sempre. Só que hoje acontece o contrário: a imagem é cada vez mais efêmera. Desaparece em três segundos." Ele acrescenta uma observação que fica na cabeça: "A fotografia hoje é quase uma abstração. No início ela era o documento da verdade. Hoje a gente precisa fazer fact-checking em quase tudo que vê”. O interior que não apoia Apesar do sucesso na Pinacoteca, Alice divide a vida entre Aparecida do Taboado e São Paulo há anos. Não por opção romântica, mas porque no Estado quase não há estrutura para artistas de arte contemporânea, mesmo em Campo Grande. "As relações acontecem em torno da Fundação, e não têm outras formas de você circular. Quem está no interior fica numa dependência muito grande da Secretaria de Cultura pra poder fazer o trabalho ser acessado." Sem conexão política local, as chances diminuem ainda mais. "Se você não tem uma pessoa influente dentro da política pra viabilizar certas coisas, fica sempre na dependência." O cenário em Campo Grande também piorou, para ela, mencionando o Marco (Museu de Arte Contemporânea), fechado há mais de cinco anos sem previsão de reabrir, e o fechamento ou descaracterização de festivais de teatro, dança e palhaçaria que existiam na Capital. O Festival América do Sul, que antes incluía exposições de artes visuais, hoje abriga show evangélico, diz ela. Os editais que sobram carecem de estrutura básica. "Abre edital pra ocupação de galeria, mas não tem verba nenhuma. É tipo empréstimo de lugar." Falta, segundo ela, o entendimento de que arte exige uma cadeia profissional. "Existe um pensamento de que o artista faz tudo. Não. Eu sou artista, estou pensando nas obras. Vai ter uma pessoa que pensa na seleção, na narrativa, na cenografia, na mediação. Não existe esse pensamento em MS." A artista descreve também uma situação em que, devido ao nome retificado, perdeu um edital com a justificativa de que “não era a mesma pessoa”. A oportunidade que mudou sua trajetória veio justamente de fora do Estado: em 2019, ganhou uma bolsa de residência no Instituto Pivô, em São Paulo, num edital voltado especificamente para artistas de fora do eixo Rio-São Paulo. Foi lá que seu trabalho começou a circular de verdade. A pandemia interrompeu o processo, ela voltou para Aparecida, e só retornou a São Paulo em 2021, a convite para atuar como educadora. Desde então, vive entre os dois lugares. Mesmo assim, Alice não pretende abrir mão do interior. "O sistema de arte de São Paulo, ao mesmo tempo que abre oportunidades, é muito fácil você cair num lugar onde de repente você não tem mais sua origem. Você se torna um artista daqui. Eu tento ao máximo fazer com que meu trabalho não caia nesse lugar."