Que carreira é essa?
De todas as profissões que exigem curso superior, esta começa com o salário mais baixo. Quem se forma nessa área ganha cerca de 14% menos que a média das demais carreiras — algo entre 60% e 80% do que recebem outros profissionais com graduação. Coincidência fatal: é também a profissão com o maior impacto direto nas habilidades da população brasileira. Não apenas na aprendizagem de conteúdos, mas na capacidade de pensar com autonomia, resolver problemas, trabalhar em equipe e colaborar com a comunidade. Sim, estou falando de professoras e professores da educação básica — aquela que vai da creche ao ensino médio. Para piorar, é uma das carreiras com menor progressão salarial. Segundo o IBGE, a evolução ao longo da vida profissional gira em torno de 1,3% a 1,5%. O salário nem chega a dobrar até a aposentadoria. Em outras áreas, além de partir de um piso mais alto, a renda pode triplicar ou quadruplicar. E a rede privada não melhora muito o cenário — em média, até piora, contrariando o senso comum. Quem, em sã consciência, escolheria essa carreira? No Brasil, são 2,4 milhões de docentes em atividade. Somando aposentados e estudantes de licenciatura, são cerca de 5 milhões de pessoas envolvidas na formação de crianças e jovens. Os motivos mais citados: contribuir para a sociedade e ajudar os menos favorecidos. O auge da valorização salarial docente no Brasil ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970. Depois de mais de 50 anos de queda, o país corre o risco de um “apagão docente”. Projeções indicam um déficit de 235 mil professores em 2040. Muitos estão adoecendo, e cada vez menos gente quer entrar em uma carreira tão desanimadora financeiramente, apesar de fascinante social e intelectualmente. A Educação não pode mais ser apenas uma política setorial. Ela está na base de
quase todos os problemas atuais. Precisamos encarar com olhos e coração abertos uma
crise que gera efeitos nefastos no presente e compromete o futuro do país. Valorizar a
educação básica é fortalecer o fundamento de uma sociedade mais equânime, capaz e
colaborativa. Não basta concordar: é preciso agir para reverter essa falha histórica. O
compromisso deve ser coletivo — e o retorno também será. (*) Lara Pozzobon da Costa é doutora em Literatura e pesquisadora-bolsista da FAPERGS