Moscou rejeita acusação de ter violado acordo militar
“A Rússia lançou em segredo um novo míssil de cruzeiro”, começa uma matéria do “The New York Times” sobre a suposta violação do INF.
Segundo a reportagem, que cita oficiais anônimos da Casa Branca, Moscou teria implantado um novo míssil de cruzeiro com ogiva nuclear.
Ao comentar a notícia, o senador do Arizona John McCain alertou que o míssil seria uma ameaça aos aliados dos Estados Unidos na Otan e às forças norte-americanas na Europa.
“É hora de o novo governo tomar ações imediatas para melhorar para melhorar a nossa postura de dissuasão na Europa e proteger nossos aliados”, pediu McCain.
Segundo relatos, a administração de Barack Obama concluiu, em julho de 2014, que a Rússia havia violado o INF, mas evitou-se entrar em confronto.
Na Rússia, autoridades e especialistas apontam as preocupações do senador norte-americano como infundadas.
Denúncias carecem de provas
O porta-voz do Kremlin, Dmítri Peskov, garantiu que a Rússia é fiel aos acordos internacionais assinados, incluindo o INF. “Ninguém acusou oficialmente a Rússia de violar o INF”, observou Peskov a jornalistas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo também negou as acusações dos EUA. Para o diretor do departamento de não proliferação e controle de armamento, Mikhail Uliánov, as alegações são “não tem fundamento nem comprovação”.
A dificuldade de provar as acusações americanas também é apontada por Timofei Bordatchev, diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia. “A reportagem não apresenta nenhuma evidência, não apresenta os nomes dos oficiais que falam sobre as violações” disse à Gazeta Russa.
Briga interna em Washington
Especialistas entrevistados pela Gazeta Russa acreditam que a publicação do NYT poderia estar relacionada à disputa política interna nos Estados Unidos. Segundo eles, uma parcela substancial do sistema americano teme que Donald Trump queira melhorar as relações com a Rússia.
Para Bordatchev, a reportagem pode ser uma notícia “falsa” plantada por partidários da linha-dura nas relações com a Rússia. “Esses tipos de informação falsa são ‘artilharia pesada’ usada não para estabelecer uma certa realidade, mas para criar uma atmosfera política que tornará a reconciliação russo-americana impossível”, disse.
O analista político e editor-chefe da revista “Russia in Global Affairs”, Fiódor Lukianov, concorda com Bordatchev. “Estamos presenciando um choque entre Trump e grande parte da classe dominante, que está tentando, pelo menos, paralisá-lo, se não realmente tirá-lo do poder”, sugere o observador.
Segundo Lukianov, a Rússia se tornou-se “uma espécie de bode expiatório” usado contra Trump desde a corrida eleitoral, quando sua então adversária Hillary Clinton o acusou de ser uma marionete do Kremlin. “Portanto, tudo o que diz respeito a provas dos planos hostis da Rússia e traição beneficia a turma anti-Trump”, explica.
Nova tendência no cenário global
Lukianov também destaca uma nova tendência nas relações internacionais. Os países começaram a discutir mais ativamente questões relacionadas aos arsenais nucleares e à segurança estratégica, quando comparado com os anos anteriores.
“Os EUA têm pela frente, se não de uma nova corrida armamentista, pelo menos, o rearmamento, a modernização de seu potencial nuclear. Até há pouco pensávamos que as armas nucleares eram basicamente um problema do passado, mas acabou que as coisas não são bem assim”, diz.
As questões relativas às armas nucleares preocupam não só os EUA, mas também a Europa. As acusações de violação do INF pela Rússia aquecem o clima às vésperas da Conferência de Segurança de Munique, de 17 a 19 de fevereiro. “A conferência é uma espécie de termômetro que mede o clima da comunidade euratlântica”, diz.