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Quando gays mais velhos exigem da nova geração o sofrimento que viveram

Pedro Anastaci

Há um tipo de tensão que raramente é nomeado, mas aparece com frequência nas interações entre homens gays de diferentes gerações. Não está apenas nos gostos, nos aplicativos ou nas referências culturais. Está, sobretudo, na forma como cada grupo entende o que significa sobreviver e, mais do que isso, merecer.

Para muitos homens gays que cresceram entre as décadas de 1970 e 1990, a independência não foi uma escolha. Foi uma exigência. Sair de casa cedo, esconder afetos, lidar com rejeições familiares e construir a própria vida com poucos recursos não era exceção. Era o caminho possível. Nesse contexto, autonomia virou sinônimo de dignidade. E sofrimento, de formação.

Essa experiência não moldou apenas trajetórias individuais. Criou também uma espécie de ética emocional. O problema surge quando essa lógica encontra uma nova geração.

Homens gays mais jovens, especialmente aqueles que cresceram em ambientes menos hostis ou em contextos urbanos mais abertos, passaram a ter acesso a outras formas de construir a própria identidade. Relações familiares mais presentes, redes de apoio e maior liberdade emocional fizeram com que o afeto deixasse de ser um risco constante e passasse a ser, em muitos casos, uma base sólida.

Para essa geração, ser cuidado não é sinônimo de incapacidade. É apenas parte de uma dinâmica possível.

E é nesse ponto que o conflito se revela.

O que para uns é privilégio, para outros soa como acomodação. O que para uns é afeto, para outros se transforma em dependência inadmissível. E, no meio disso, surgem julgamentos que raramente se apresentam como dor, mas frequentemente aparecem como desprezo.

Eles nem sempre vêm em forma de ataque direto. Às vezes surgem como comentários rápidos, quase automáticos. “Tem que ter atitude.” “Gente parada me broxa.” Não são apenas preferências. São critérios.

Em outros momentos, situações banais ganham um peso desproporcional. O gay mais novo não pode ter uma vida “fácil”. Não pode ter uma rede de apoio, morar com ou perto da família que o ama. Não pode querer ser buscado de carro se não dirige, porque isso é um absurdo, um ultraje, um crime hediondo. Tem que ir de ônibus, a pé, dar seu jeito. Tem que sofrer para provar merecimento.

O que poderia ser apenas rotina se transforma em teste de caráter. Há, por trás disso, algo menos visível e mais desconfortável. A possibilidade de que o sofrimento vivido não era inevitável, mas circunstancial.

Se uma nova geração pode existir com mais suporte, mais afeto e menos urgência de sobrevivência, isso desloca a ideia de que a dor foi um rito necessário de passagem. E essa percepção, ainda que silenciosa, pode ser difícil de sustentar.

Nesse ponto, onde poderia haver maturidade, surge outra coisa. A experiência não se transforma em compreensão. Vira régua.

Se um sofreu, o outro também deveria. Se não sofreu, há algo errado. E então aparecem os rótulos, sempre os mesmos, sempre rápidos: mimado, folgado, protegido demais. “Filhinho da mamãe.” Indigno.

É uma inversão curiosa. A dor, que poderia servir como argumento para que ninguém mais precisasse passar pelo mesmo, passa a ser defendida como requisito. Como se a ausência de sofrimento fosse uma falha de caráter.

No fundo, não é maturidade. É o contrário.

Não se trata de preservar valor algum, mas de não admitir que alguém possa ter um caminho menos duro. Como se a própria história só fizesse sentido se continuasse sendo repetida nos outros.

No meio desse cenário, permanece uma pergunta que raramente é feita de forma direta: até que ponto a força construída na escassez precisa continuar sendo a única forma legítima de existir?

Talvez o conflito não esteja exatamente entre gerações, mas entre duas formas distintas de entender dignidade. Uma fundada na resistência. Outra na possibilidade de viver sem precisar resistir o tempo todo.

Entre elas, ainda há pouco espaço para conversa.

Pedro Anastaci é advogado, cantor e compositor goiano. Entre a música e a escrita, explora em suas crônicas temas como afeto, memória e identidade

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