Mesmo com singela alta no preço, Brasil mantém cigarro entre os mais baratos da América do Sul; número de fumantes cresce após duas décadas de queda
O recente reajuste do preço mínimo do cigarro, que passou de R$ 6,50 para R$ 7,50, foi anunciado pelo governo federal como medida compensatória à redução de impostos sobre combustíveis. Apesar disso, em entrevista ao Jornal Opção, neste domingo, 19, a pneumologista Daniela Campos, diretora da Sociedade Goiana de Pneumologia e integrante da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, aponta que o valor continua baixo e insuficiente para frear o consumo.
O país, que já registra 177 mil mortes anuais relacionadas ao tabaco, voltou a apresentar aumento no número de fumantes pela primeira vez em 20 anos, consolidando-se como o terceiro mercado mais barato da América do Sul para o produto.
Novos fumantes
Ela alerta que o baixo custo favorece a iniciação de novos fumantes, especialmente entre os jovens. “O baixo preço favorece o consumo, e a indústria do tabaco é muito rica, mesmo os preços ficando anos congelados. No Brasil, nada fica congelado, combustível sobe toda semana, arroz, feijão… E por que a gente tem esse congelamento de uma substância que sabidamente causa tantas doenças?”, questiona.
Segundo ela, o impacto já é visível, após duas décadas de queda, o número de fumantes voltou a crescer. “Pela primeira vez em 20 anos, o número de fumantes cresceu no país, passando de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. Essa alta de 25% preocupa muito a classe médica e, principalmente, nós da Comissão de Tabagismo, porque esse aumento só favorece o maior adoecimento”, afirma.
Ela aponta que um agravante é o cigarro eletrônico, que atraiu uma nova geração de consumidores. “Ele tem sabor de baunilha, chocolate, menta, justamente para pegar uma população infantil. Hoje, crianças de 13 a 17 anos já fumam. De cada 100 jovens, 8 são fumantes em faixa etária pediátrica. A indústria agora ganha um público que nunca antes havia fumado”, destaca.
Ela lembra que, além do preço baixo, o contrabando amplia o acesso. “Mais de 50% dos cigarros que chegam ao Brasil são de contrabando. Por isso a indústria segura o preço do cigarro legalizado, para competir com o contrabandeado, que é ainda mais barato e consumido pela população de média e baixa renda”, explica.
A médica também critica a cultura permissiva em festas e baladas, onde o cigarro eletrônico é usado em ambientes fechados. “Infelizmente, nessas festas, o cigarro eletrônico é permitido, coisa que não é permitida por lei. As pessoas acham que é vapor d’água, que não faz mal, mas já se notou grande quantidade de metais pesados e partículas nessa fumaça. Além de prejudicar quem fuma, prejudica terceiros”, alerta.
Riscos e impacto no SUS
Daniela comenta que os riscos imediatos são graves. “O cigarro convencional causa enfisema, câncer, infarto e AVC. Já o eletrônico tem provocado doenças muito mais severas, como a EVALI, um dano alveolar difuso que leva o paciente para a UTI. Muitos adolescentes e jovens adultos já morreram por isso”, explica.
O impacto no sistema de saúde é devastador. “São 177 mil mortes por ano no Brasil ligadas ao uso de cigarros. O SUS gasta cerca de R$ 53 bilhões com doenças relacionadas ao tabaco, mas a arrecadação de impostos cobre apenas 5% desse valor. É uma conta que não fecha”, diz.
Ela lembra que pacientes com doenças respiratórias graves geralmente precisam de ventilação mecânica e internação em UTI, o que torna o tratamento ainda mais caro.
O que fazer para reverter o quadro?
Para mudar esse cenário, a pneumologista defende medidas mais rigorosas. “O valor do cigarro convencional tinha que ser muito mais caro para inibir a compra. Precisamos de campanhas de conscientização maiores do governo e de combate efetivo ao contrabando. Com relação ao cigarro eletrônico, é necessária fiscalização, apreensão e multa para quem vende, porque sua comercialização é proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Sem isso, continuaremos vendo o número de fumantes crescer e o sistema de saúde sobrecarregado”, aponta.
A diretora da Sociedade Goiana de Pneumologia aponta sobre a atratividade dos sabores adicionados ao cigarro eletrônico, o que fez com que mais pessoas passassem a experimentá-lo. “O que pegou muito foi a questão dos sabores. A indústria trouxe baunilha, chocolate, morango, mascarando a nicotina. Isso entrou nas casas e dificultou que os pais percebam que os filhos estão fumando. O adolescente, pressionado pela ansiedade e risco de suicídio, vê no cigarro eletrônico uma forma de extravasar, mas só piora a vida dele”, afirma.
Ela defende que os sabores sejam proibidos, tornando o cigarro eletrônico tão desagradável quanto o convencional. “Se tivesse gosto ruim, não haveria prazer em fumar. É preciso enfatizar que tabagismo é uma doença, tem CID-10, e existe tratamento. As pessoas acham que é apenas um vício, mas não é. O cigarro vicia, contém nicotina, e muitos eletrônicos ainda têm canabidiol, derivado da maconha. O SUS oferece atendimento e programas de tabagismo, e isso precisa ser divulgado”, destaca.
O tratamento, segundo a diretora, é multidisciplinar. “Contamos com psiquiatria, psicologia, cardiologia e pneumologia. Como é uma doença ligada à ansiedade, depressão e risco de suicídio, precisamos de equipes completas para ajudar o paciente. O tratamento envolve reposição de nicotina, medicamentos para ansiedade e aconselhamento psicológico. São várias frentes para que essa pessoa consiga parar de fumar”, finaliza.
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