Coisas de mulheres
Tudo começou quando, ano passado, a Vivian, uma planejadora financeira incrível, escolheu a Palavrear para uma roda de conversa sobre Virgínia Woolf e dinheiro. Entre outras coisas, ela falou sobre a relação tempo/dinheiro/escrita/mulher. Com trechos da obra de Woolf, ela falava sobre esse lugar das mulheres e a construção da independência.
Desde então, esse evento relacionado à maternidade versus tempo; mulheres versus hobbies; maternidade versus liberdade, não me saiu mais da cabeça.
Então passei, tal qual Virginia Woolf, a observar o mundo a minha volta. E comecei pelos meus passeios diários com minhas cachorras. Logo na esquina tem um desses botequins de bairro, cadeira vermelha e amarela, emblema da Brahma, um cachorro caramelo dormindo estendido no chão, a maquina de frango e os personagens clássicos tomando cerveja em um copo sujo americano.
E todos os dias tem o mesmo senhor sentado, tomando sua cerveja. E fiquei pensando: porque não temos uma senhora? Porque sempre somente homens sentados em um bar, a qualquer dia e hora?
Nessa observância, teve também algo curioso: gosto muito de moda. Gosto de ter certa liberdade para vestir o que me deixa feliz (independente se as pessoas vão gostar ou não) e gosto de tirar fotos e postar no meu instagram pessoal. Então me vi varias vezes sendo questionada sobre o motivo das fotos. Para que fazer isso. O que elas teriam relação com a minha profissão ou a minha livraria. E como moda ainda e visto como coisa de mulher e, nesse caso, uma coisa superfula, fútil.
Então fiquei pensando sobre essa liberdade masculina de poder sentar de manha em um boteco sozinho e beber sua cerveja em paz, sem ninguém perguntando se o almoço estará pronto no horário ou com quem ficaram os filhos; em poder gostar e ate mesmo chorar pelo time de futebol, jogar videogame sem ser chamado de fútil ou ter que justificar porque mesmo ate hoje ele gosta de Pokémon. Fora a liberdade absoluta que deve ser poder sentir raiva e expressar sem ser taxado de histérico. Alem da sensação maravilhosa que deve ser a de não ser obrigado a ser amável.
Depois disso, percebi certa dificuldade minha em continuar fazendo o que antes para mim era ate natural. Em continuar postando, falando sobre roupas, mostrando que meu modo de vestir é intrínseco a quem eu sou; pelo simples fato de ter medo de me acharem fútil, de me colocarem em um lugar menor ou, ainda pior, questionarem a minha experiência profissional, e eu ter que voltar a fase em que “precisava” me provar. Provar minha capacidade.
Mas então aconteceu um movimento sutil: algumas mulheres começaram a fazer o que eu estava fazendo, inclusive me marcando ou falando comigo sobre isso, de se fotografar mais, de se arrumarem mais e postarem. E ai eu vi a importância desse caminho, dessa parceria por vezes silenciosa que as mulheres criam entre si.
Nós mulheres não somos ensinadas a ter hobbies. Homens desde pequenos são levados em estádios para ver futebol, ganham videogames. Às mulheres, os brinquedos que são relegados a nós, em sua maioria são imitação de cuidado: brincar de boneca, cozinha, casinha…
Normalmente as filhas mulheres são vistas como futuras cuidadoras dos pais e mães. Mesmo quando tem mais filhos homens que mulheres e, por vezes, tendo mais disponibilidade de tempo que as filhas. Talvez sendo esse, inclusive, o motivo de não sermos ensinadas a ter hobbies ou outro tipo de brincadeira fora do cuidado.
Virginia escreveu “Um teto todo seu” (o livro em que a Vivian mais se baseou para sua roda de conversa), em 1928. E é surpreendente como continua sendo atual. Quando ela escreveu que uma mulher precisa ter dinheiro para que possa ter a liberdade de escrever o que quiser, alem de um espaço só seu, ela simbolizava também o tempo e a tranquilidade que muitas vezes as mulheres não tem.
E eu acrescentaria (com licença a Virginia Woolf), a essa necessidade de se ter dinheiro, a liberdade de poder praticar hobbies, atividades e gostos considerados “femininos”.
Pois gostar de coisas que são consideradas “femininas” é uma espécie de prisão. Porque não temos liberdade para expressa-las. Divulga-las. Como os homens fazem.
Vejo isso ate mesmo nos clubes de livros da Palavrear. A maioria das participantes são mulheres. E vejo que alguns homens acham um “hobby” totalmente feminino, pois consideram que ler ficção, romances é “coisa de mulher”. Como se livros tivessem gêneros…
Gênero molda espaço, gosto, hobbies e até a escolha por uma profissão.
Acredito que os momentos de hobbies e ócio são importantes ate para que eu possa escrever melhor. Me tornar uma curadora, livreira mais apurada. E na condição de mulher, eu gostaria que a minha inteligência e a minha profissão não fossem contestadas quando eu digo e posto e divulgo que eu gosto de moda ou algum hobby qualquer.
Por isso acredito que existe algo muito revelador quando as mulheres praticam, mostram e falam dos seus hobbies, nem que sejam umas para as outras. Assim, nós mulheres, vamos encontrando brechas para que possamos viver a vida que a gente pode viver.
O post Coisas de mulheres apareceu primeiro em Jornal Opção.