Aos 89 anos, Amadeu Dias de Moura se esforça para formar frases. A fala foi roubada pela vida e traumas do passado. O homem que ensinou gerações a "gritar" sua força no tatame hoje vive o silêncio como refúgio. Por isso, é a filha que dá voz aos mais de 30 anos em que deu aulas de Taekwondo na academia de Corumbá. Amadeu é o mais famoso faixa-preta no esporte em Mato Grosso do Sul e um dos primeiros do país. Para que a história dele não se perdesse, a filha, Jacqueline Ferri de Moura, de 61 anos, resolveu transformar o passado do Grão-Mestre em um documentário. A ausência da fala começou após o susto sofrido em um acidente aéreo envolvendo o neto. Felizmente, o major da Aeronáutica e piloto da Força Aérea Brasileira, Felipe Battesti, conseguiu sobreviver após ser ejetado da aeronave durante a queda, no Rio de Janeiro. Amadeu, que já estava debilitado pela idade, acabou piorando depois da morte da esposa Enida Maria Ferri de Moura, em 2022, e o quadro de depressão, que já vinha desde 2018, se agravou. Desde então, o mestre passou a apresentar um bloqueio que compromete a fala. As respostas são curtas e, na maior parte do tempo, ele não se esforça para se comunicar com clareza. A academia que comandava em Corumbá hoje está fechada. Durante mais de 30 anos, foi referência no esporte no estado. Além de Jacqueline, Amadeu tem mais um filho, Amadeu Dias de Moura Júnior, de 62 anos, que seguiu os passos do pai e se tornou mestre também. A filha explica que o longa “Luta de verdade” será exibido no dia 24 de abril, e a turismóloga conta como foi fazer tudo. As cenas revisitam a antiga academia dele, na Rua Antônio João. “Foi emocionante revisitar memórias já guardadas. Reviver todas as nossas experiências com os alunos e os pais, e outras academias. Muita emoção em olhar para trás e ver tudo o que meu pai conquistou. O documentário nasce da necessidade de contar essa história que vai muito além do esporte, é sobre vida, resistência, valores e legado. Ele existe para mostrar que a verdadeira luta não acontece apenas nos dojangs, mas principalmente fora deles”. A ideia é contar sobre o desenvolvimento do Taekwondo em uma região onde tudo começou com poucos recursos, mas com muita determinação e garantir que essa história não se perca no tempo. “É para mostrar que, independentemente das circunstâncias, é possível vencer. Que a luta verdadeira forma caráter, constrói cidadãos e transforma vidas. Reconhecer a importância de um mestre que dedicou sua vida à formação de pessoas, ensinando não apenas técnicas, mas princípios como respeito, disciplina e dizer não às drogas”. Ela conta que o pai usava o dinheiro de um terreno que tinha em outra cidade para custear a bolsa de alunos. Na academia, 70% deles eram bolsistas. Também saía do próprio bolso o dinheiro para os campeonatos. “Ele acolhia a todos, quem podia pagar ou não a academia. Minha mãe era parceira e até dava aula de reforço (de graça) para as crianças. Era professora do ensino do 3º ao 7º ano”, conta a turismóloga. Nascido em 24 de outubro de 1936, em Santo Antônio do Leverger (MT), Amadeu foi ainda bebê para Corumbá. O primeiro contato com as artes marciais aconteceu no Rio de Janeiro, período em que praticou karatê no estilo shotokan, antes de migrar para o taekwondo na década de 1970. Em 1976, alcançou um marco histórico ao se tornar uma das primeiras faixas pretas de taekwondo do Brasil, registrada sob o número 39 na então Confederação Brasileira de Pugilismo. No mesmo ano, retornou a Corumbá para introduzir e expandir a modalidade em uma região onde o esporte ainda era praticamente desconhecido, quando Mato Grosso ainda era um estado unificado. A iniciativa deu resultado. Ao longo dos anos, Amadeu formou atletas e instrutores, ajudando a consolidar o Taekwondo tanto em Mato Grosso quanto em Mato Grosso do Sul. “Em 1977, ele foi movido por coragem e determinação. Ele chegou a uma região onde a arte marcial ainda era praticamente desconhecida. Naquele tempo, o estado ainda não havia sido dividido, e levar o Taekwondo para o interior do Brasil era um verdadeiro desafio. Não havia estrutura, não havia tradição, não havia referências”. O reconhecimento oficial veio décadas depois. Em dezembro de 2020, foi promovido a grão-mestre 7º dan pela CBTKD (Confederação Brasileira de Taekwondo) e pela FTKDMS (Federação de Taekwondo de Mato Grosso do Sul). Sua academia, em Corumbá, se tornou referência na formação esportiva e na difusão das artes marciais na região. O documentário “Luta de verdade” será exibido no dia 24 de abril, no Centro de Convenções Miguel Gomez, na Rua Domingos Sahio, 570, Porto Geral.