Depois de 63 dias dentro de um quarto de hospital, o pedido simples foi sair.Aos 85 anos, o professor Kalil Kamis, que dedicou décadas ao ensino de administração na Uniderp, já não está em um momento de cura, mas de cuidado. Com Alzheimer avançado, diagnóstico recente de câncer no rim e o coração funcionando com apenas 38%, o tratamento agora é paliativo, com conforto, presença e dignidade. Na última sexta-feira, veio o desejo. “Eu quero sair do hospital”, disse ele, em voz baixa. O pedido mobilizou uma pequena força-tarefa dentro do Hospital Proncor. Pela primeira vez, a equipe decidiu ir além dos corredores e levar um paciente para fora. O destino escolhido foi o Parque das Nações Indígenas. Mas havia um detalhe que tornou tudo ainda maior. A esposa dele, Mirena Mendonça Kamis, companheira há cerca de duas décadas, nunca tinha ido ao parque, mesmo morando há mais de 20 anos na cidade. “Eu moro aqui esse tempo todo e nunca tive essa oportunidade”, contou. A ideia surgiu poucos dias antes. Segundo a psicóloga Yasmin Rocha, tudo começou com o pedido simples de Kalil. “Ele queria sair. No começo, pensamos em levá-lo só até o jardim do hospital. Mas aí descobrimos que ela nunca tinha ido ao parque. E pensamos: por que não?”, explica. A saída exigiu planejamento, cuidado, uma ambulância equipada e avaliação clínica. “Foi a primeira vez que a gente tirou um paciente do hospital. Existe toda uma logística, mas entendemos que aquilo fazia sentido para ele naquele momento”, diz Yasmin. A chuva encurtou o passeio. Foram poucos minutos. Mas suficientes. Kalil percebeu. “Ele entrou e comentou: ‘a chuva veio fora de hora’”, relembra a psicóloga. O médico e coordenador da unidade, Dr. Gabriel Begotto, explica que o momento de Kalil exige outro tipo de olhar. O cuidado paliativo não é desistir. É entender até onde vale ir sem causar sofrimento”, afirma Dr. Gabriel. Segundo ele, a equipe optou por um modelo chamado “cuidado paliativo proporcional”. “Se a gente insistir em tratamentos invasivos, pode gerar mais dor do que benefício. Então a decisão, junto com a família, é priorizar o conforto”, explica. Kalil convive com múltiplas condições: além do Alzheimer, há a fragilidade cardíaca e uma lesão renal descoberta durante a internação, que não será tratada de forma agressiva. “Hoje, tudo é pensado para que ele fique bem. Desde medicação até momentos como esse passeio”, completa o médico. 63 dias ao lado dele Se Kalil permanece no hospital, Mirena também. Há exatos 63 dias, ela dorme em um sofá no quarto. Vai em casa apenas o tempo necessário para cuidar das duas gatas e volta. “Essa aqui é minha segunda casa”, resume. Ela cuida de tudo. Sempre cuidou. “Eu sou esposa, procuradora… agora sou cuidadora. Ninguém tira ele de mim”, diz. A rotina é exaustiva. O corpo sente. A vida mudou. Mas ela não sai de perto. “Eu choro, mas vou. Não sou mulher de abaixar a cabeça”, afirma enquanto segura forte a mão da repórter e demonstra ali que o amor também é cuidado, mesmo quando já não há mais o que curar. Kalil já não consegue manter longas conversas. A memória falha. A lucidez oscila. Mas há algo que permanece. Quando olha para Mirena, ele sorri. Mesmo em meio às perdas, ele ainda reconhece o que importa. “Tem momentos que ele não está, mas o amor ele não esquece”, descreve quem acompanha de perto. Mirena fala pouco sobre o futuro. Prefere olhar para o presente. “A vida é hoje. Aqui e agora”, diz. Enquanto organiza a rotina no hospital, também pensa em coisas simples: o aniversário que vai comemorar ali mesmo, um bolo para dividir com a equipe, pequenos gestos que insistem em manter a vida acontecendo. “Eu vou fazer. Tem que fazer”, garante. Para a equipe, a saída ao parque não foi apenas simbólica. “Quando começamos a tirar ele do leito e andar pelo hospital, vimos melhora no humor. Aí pensamos: se aqui dentro já faz bem, imagina lá fora”, finaliza o médico.