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A crueldade também é um marcador do patriarcado

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública trazem notícias do ano de 2025. Foram 1.568 vítimas de feminicídio no ano passado, demonstrando crescimento de 4,7% em relação a 2024. 59,4% dessas mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% mortas por algum ex-parceiro. As histórias dessas mulheres não podem ser traduzidas em estatísticas, mas os números crescem e esquecem-se os nomes. Ao final de janeiro de 2026, no Rio de Janeiro, uma jovem foi vítima de estupro coletivo após ser atraída para uma emboscada organizada por um ex-namorado, que a violou com outros 4 homens, um deles menor de idade, com 17 anos, que, segundo os noticiários, premeditou o ato utilizando-se da relação romântica que um dia possuíram para manipulá-la. Casos de violência sexual frequentemente são interpretados como atos de brutalidade individual. Há tentativa de patologizar os agressores e narrativas que visam turvar o não consentimento da vítima. No entanto, a mera análise da dimensão criminal ou psicológica impede compreender um aspecto macro desses acontecimentos. A violência contra meninas e mulheres é produzida e reproduzida dentro de uma estrutura histórica de poder. O patriarcado caminha junto com outros pilares, como raça e classe, e estabelece hierarquias de gênero que associam masculinidade ao domínio e feminilidade à submissão. A crueldade dirigida ao corpo feminino funciona como mecanismo de controle social, mas também como rito de passagem, onde meninos se tornam homens pela violência e passam a ser respeitados por seus pares. O corpo das mulheres é desumanizado, torna-se território de disputa e afirmação de status. Meninos são socializados para demonstrar força e invulnerabilidade emocional, enquanto meninas aprendem a negociar sua segurança dentro de um mundo que constantemente ameaça sua autonomia. A violência sexual que surge nas dinâmicas de gênero é uma linguagem de poder, de modo que quando uma mulher rompe expectativas pode ser percebida como alguém que “desafiou” uma hierarquia informal. A masculinidade – em sua pluralidade, mas também em seu objetivo comum de subjugar corpos não masculinos – visa restaurar essa ficta ordem. Essa dinâmica aparece desde cedo em homens ainda menores de idade ou recém-chegados à vida adulta. A adolescência é um período em que a identidade é construída também pela validação, e muitos meninos aprendem que a masculinidade precisa ser provada diante de outros homens. A violência deixa de ser uma ação individual e passa a funcionar como ritual de pertencimento, criando narrativas que relativizam ou justificam o abuso, como a pergunta “por que ela estava naquele lugar, naquele horário, vestindo tal roupa?”, como se qualquer resposta justificasse o injustificável. Não se pode olvidar que o patriarcado também se mantém através de uma cultura que frequentemente minimiza a violência contra mulheres. O divórcio somente foi legalizado no Brasil em 1977, a Lei Maria da Penha é de 2006, a Lei do Feminicídio é de 2015, de modo que a questão da mulher enquanto sujeito no discurso legal ainda é recente. No discurso popular ainda se vê culpabilização das vítimas, piadas que sexualizam a humilhação feminina e representações culturais que romantizam o controle e o ciúme. Homens raramente são ensinados a refletir criticamente sobre os privilégios e pressões associados à masculinidade. Conclui-se que enfrentar a violência contra meninas e mulheres torna necessário questionar as estruturas culturais que sustentam a associação entre masculinidade e poder. Enquanto o patriarcado continuar a definir o valor social dos homens pela capacidade de dominar e o das mulheres pela capacidade de suportar, a crueldade, característica comum desses seres, permanecerá como elemento estruturante das relações de gênero. (*) Anna Beatriz de Carvalho Leite é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, na linha de pesquisa Educação em e para direitos humanos, com ênfase em questões nos estudos sobre gênero e sexualidade, sobretudo masculinidades. Advogada da área criminal como foco no combate à violência de gênero.

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