O amor do corumbaense pela folia de momo não é de agora, tem pelo menos um século e meio. Noticiado pelos jornais da época, o entrudo (uma tradição portuguesa baseada em brincadeiras de rua, muitas vezes agressivas, com água e talco, precursor do carnaval brasileiro), era uma das principais diversões no final dos anos de 1880 em Corumbá. Tempos de reconstrução e modernização da cidade, depois de ser ocupada por três anos pelos paraguaios na Guerra do Paraguai (1864-1870) e severamente destruída. Com a abertura da navegação internacional pelo Rio Paraguai, Corumbá se tornaria um dos principais portos da América Latina e a atração de comerciantes do continente e da Europa trouxe também os cariocas com a Marinha. O carnaval estava inserido em um contexto no renascimento do núcleo urbano até então abandonado pela província, com uma população de quatro mil “almas”. Portugueses, italianos, franceses, alemães, sírios, libaneses e platinos assumiram o controle do comércio e ergueram um efervescente polo econômico e uma cidade cosmopolita no final do século XIX. No pós-guerra, a cidade cada vez mais incorporava hábitos, atividades de lazer e diversão, então em expansão nos grandes centros urbanos do país com o movimento portuário. Um dos primeiros jornais de Mato Grosso, de 1877, o Iniciador estampada em suas páginas tipográficas anúncios de eventos relacionados ao entrudo, os quais evoluíram para festas particulares em residências e salões. Bailes à fantasia - A edição do dia 19 de fevereiro de 1881 propagava a abertura “com toda a pompa” do salão do Genarino Riccio, sito à Rua Delamare (centro de Corumbá), para grandes bailes carnavalescos à fantasia durante três dias. “Não faltará a cerveja de marcas Gallo, Tigre e Tenente, café e licores”, anunciava o reclame. Pelas três noites se pagava com desconto 28.000 reis (cerca de R$ 3,5 mil). Conforme a imprensa noticiava, os bailes restritos à elite eram a novidade em Corumbá nesse final de século, com o surgimento de associações carnavalescas, como a S.C.D Diabo a Quatro, Club Carlos Gomes e o Bar Polo Norte, cujos divertimentos em seus salões, em 1880, ocorriam com seleção de participantes (“seleção de convivência”), segundo o que se propagava por meio de convites. O maior carnavalesco, até 1905, foi Jorge Comuzile, que anunciava os bailes tocando bombo entre as ruas Delamare, Antônio João e Tiradentes. De 1906 em diante, eram “animadores” João Batista Oliveira e seu irmão Ladislau, “que saíam às ruas com bombo, prato metálico, tambor e gramofone sobre a cabeça, fazendo anúncio do carnaval”, conforme pesquisas. Nesse momento, a promoção da diversão já ganhava um apelo comercial explorado pelos estabelecimentos do ramo. João Estêves era proprietário da casa comercial A bela madrugada, que oferecia os apetrechos indispensáveis para a folia. Os anúncios em periódicos conclamavam a população a adquirir máscaras, fantasias, faixas luminosas. Sátiras e censura - Já naquele período, a ligação (pelo rio, em navios de luxo a vapor) com o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, “influenciava os costumes, que migravam de um caráter mais popular e desorganizado para desfiles (os préstitos, no lugar do entrudo) mais estruturados”, revela o estudo acadêmico publicado em 2018 por Denise Abrão Nachif e Gilberto Luiz Alves. Segundo pesquisa (disponível na Internet) de pós-graduação sobre os préstitos carnavalescos, realizada por João Carlos de Souza, do campus de Dourados da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), esses desfiles organizados por entidades locais geralmente eram polêmicos e geradores de conflitos. Os préstitos eram uma espécie de teatro com seus carros alegóricos puxados por tração animal (cavalos e cabritos) e acabaram se configurando em sátiras e homenagens a personagens ou acontecimentos recentes, como a chegada do telégrafo na cidade, em 1904, e dos trilhos da Noroeste do Brasil, em 1911. Também predominava a crítica a determinadas situações ou equipamentos urbanos e desafetos pessoais. Como aos Correios, em razão do extravio de cartas, e ao jogo do bicho (“no carro alegórico, via-se uma gaiola, dentro da qual, encontrava-se um pequeno gato”, cita o Iniciador); à “greve” dos despachantes, aos impostos interestaduais e à cessão territorial de Mato Grosso por ocasião da questão do Acre, em 1903. Batina do padre - Havia, no entanto, a vigilância e o rigor da polícia. Grupos ou clubes que pretendessem exibir em público críticas ou alegorias estavam sujeitos à censura do delegado. Para sair fantasiado, mesmo com uma simples máscara, exigia-se licença. O Iniciador divulgou, em 1880, que um folião se desentendeu com a polícia porque desejava sair do clube com a máscara e foi preso. Um dos fatos mais marcantes naqueles tempos envolveu justamente o polêmico frei Mariano de Bagnaia, que, ao final do século, deixou o lugar acusado de mau pagador e teria jogado uma maldição sobre Corumbá. Narra um irônico articulista do Iniciador, em 5 de março de 1882, que o coroinha da capela roubou a batina do padre para desfilar pelas ruas, deixando-o enfurecido. Era carnaval!