Crueldade não é sinônimo de violência, esta inseparável parceira da história e mesmo (se vista como agressividade) de nossa sobrevivência. Crueldade é o gozo sádico de infligir a dor ou o prazer desabrido com o espetáculo do sofrimento alheio. Por esquisito que pareça, a indiferença e a apatia, tão pacíficas, são formas requintadas de crueldade. Cada vez mais presentes no mundo atual, normalizadas, disseminadas. O filósofo norte-americano e neopragmatista Richard Rorty escreveu um panfletinho de 44 páginas, Uma Ética Laica, que nos dá algumas pistas sobre esta epidemia que prospera no século 21. Para combatê-la, ou no mínimo amenizá-la, sugere uma plataforma política minimalista: esquecer as trovejantes utopias e apenas agir para tornar os homens menos infelizes. Não há nada de ingênuo nisso, pois se sabe que o ideal de uma sociedade em que todos amam todos é tolo, uma monstruosidade como a Quimera da mitologia. No máximo, atingiríamos aquele patamar em que “todos respeitem (razoavelmente) os outros. Nenhum regime político, ecumenismo religioso ou senso de dever moral seria capaz de assegurar este patamar. Nobres princípios desmoronam rapidinho diante do “meu pirão primeiro”, quando as coisas apertam. Para Rorty, a resistência consiste em buscar um pacto de mínima concórdia, mas tal pacto só seria possível se alargássemos nossa concepção de comunidade. Como? Desenvolvendo a capacidade de ampliar o número de pessoas que pertencem ao nosso círculo. A ênfase aqui é no termo “nosso”. Não meu, não de meus parentes e vizinhos, não de meus conterrâneos, mas trazendo outras tribos humanas para esse círculo de parentesco. A ferramenta para isso seria tributária do sentimento e da imaginação, jamais uma imposição. Imaginar-se um Winston Smith de 1984, de Orwell, um Ivan Ilitch, de Tolstói, até a vítima da Lolita, de Nabokov, para ficar nos clássicos. Só então, alargando esta comunidade de confiança e identidade, através do reconhecimento-espelhamento, só então as piores idiossincrasias que alimentam a crueldade se dissolveriam em um prosaico “poderia ser eu”. Entender visceralmente (não teoricamente) o “poderia ser comigo” é mais que tolerância. É a única revolução possível e desejável. (*) Marília Fiorillo, professora de Filosofia Política e Retórica da Escola de Comunicações e Artes da USP