O desespero para perder peso de uma hora para outra está levando moradores de Mato Grosso do Sul a injetar no próprio corpo até produto em fase de testes com animais, ainda muito longe de ser considerado oficialmente um medicamento aprovado por agências regulatórias. O novo “milagre do emagrecimento” é a “retatrutida” ou “retatrutide”, que está sendo desenvolvida pela empresa farmacêutica norte-americana Eli Lilly. Ainda é um medicamento experimental que passa pela terceira fase de testes para avaliar sua segurança e eficácia e só deve ser liberado para venda em 2027. Mesmo antes de ser aprovada, a retatrutida vem sendo considerada inovadora no combate à obesidade e ao diabetes tipo 2. O produto apresenta resultado superior a medicamentos já conhecidos por imitar três hormônios intestinais naturais (GLP-1, GIP e glucagon). O Ozempic apresenta ação em apenas um desses hormônios (GLP-1) e o Mounjaro em dois (GLP-1 e GIP). A fama viral do produto nas redes sociais foi suficiente para impulsionar a procura. Como onde tem procura, tem demanda, a “indústria paralela” passou a produzir e vender o novo medicamento milagroso. Na “terra sem lei” que se tornou a linha internacional entre o Paraguai e Mato Grosso do Sul, é possível comprar a “retatrutida” até em tabacarias. Levantamento feito pelo Campo Grande News nesta semana revela que o produto começa a tomar espaço da tirzepatida, nome do princípio ativo do Mounjaro. Mesmo sendo bem mais caro, entre R$ 1.100 e R$ 1.800, as vendas dispararam. Nos primeiros dias de 2026, caixas de Retatrutide (nome adotado no Paraguai) começaram a aparecer entre produtos contrabandeados apreendidos nas estradas da fronteira. “A embalagem antiga está 980 reais. A embalagem nova, 1.100 reais. É uma caneta, já vem pronta, igual ao Mounjaro, só precisa trocar a pontinha e aplicar uma vez por semana”, afirmou o vendedor de uma loja de Pedro Juan Caballero, sem saber que conversava com a reportagem. Questionado se o produto ainda está em fase de testes, o vendedor garante que a retatrutida já foi aprovada. “Vem de um laboratório alemão, é tão bom quanto o Mounjaro.” “Ele é verdadeiro, falam que está em fase de testes, mas não é verdade. Tem muita gente que já tomou e aprovou o remédio”, afirmou o vendedor de outro estabelecimento, bastante conhecido na cidade. Em espanhol, a vendedora de uma farmácia de Pedro Juan Caballero reconhece que o produto ainda não tem autorização no Brasil e no Paraguai. “Essa retatrutida é superior à tirzepatida, está saindo muito bem, mas como ainda não está autorizada, vem do Reino Unido e da Alemanha. A caneta tem 40 miligramas e você aplica por cliques. Ela dura três meses”, diz. Na cidade separada por uma rua de Ponta Porã, a marca de retatrutida mais encontrada é da Synedica. Em sua página na internet, a Synedica afirma ser uma empresa internacional especializada em suporte, orientação e fornecimento de produtos importados para controle de peso, com operação central no Reino Unido e atendimento dedicado para clientes no Brasil. A empresa vende o suposto medicamento em sua página oficial. A caixa para tratamento de três meses custa R$ 2.250. Segundo a empresa, o produto é “100% original”, importado do Reino Unido. A marca é alvo de investigação da Receita Federal do Brasil por contrabando. Alerta - A farmacêutica Daniely Proença dos Santos, presidente do CRF (Conselho Regional de Farmácia) de Mato Grosso do Sul, fez um alerta sobre o uso do emagrecedor retatrutida. A nova molécula é desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, a mesma indústria responsável pelo Mounjaro. A presidente explica que o medicamento surge com a promessa de reduzir o apetite, melhorar o controle glicêmico e aumentar o gasto energético, auxiliando na queima de calorias, com estudos iniciais apontando perda de até 28% de gordura corporal. No entanto, Daniely explica que a substância ainda está em fase dois de estudos clínicos e precisa passar por três etapas antes de qualquer liberação. Diferente do Ozempic e do Mounjaro, que provocam perda significativa de massa muscular e exigem acompanhamento nutricional rigoroso, a promessa da retatrutida é promover a queima de gordura com menor impacto muscular, algo que ainda não foi comprovado. O medicamento não está aprovado por nenhuma agência regulatória no mundo e não é autorizado para venda em nenhum país. As versões que circulam atualmente são ilegais, sem origem conhecida e possivelmente falsificadas. "Não há definição de dose segura, tampouco da forma farmacêutica adequada, o que representa um risco elevado à saúde", alerta. "Antes de testar qualquer substância em seres humanos, os cientistas precisam identificar se ela causa danos a órgãos vitais (fígado, rins, coração) ou se é letal em determinadas doses", completa. Ainda estão sendo avaliadas as consequências a longo prazo, especialmente em pessoas com doenças crônicas, idosos e jovens que utilizam a substância sem qualquer acompanhamento profissional. A previsão é que, se aprovada, a retatrutida só chegue ao mercado no fim de 2026. Daniely reforça que, em uma sociedade marcada pela busca do corpo perfeito, nenhum medicamento deve ser usado sem orientação e acompanhamento adequado. Denúncias podem ser feitas à ouvidoria do Conselho Regional de Farmácia pelo telefone (67) 3325-8090.