Morre Raimundo Rodrigues Pereira, o jornalista que sabia fazer tudo numa redação
Raimundo Rodrigues Pereira era o “homem-jornal” ou “homem-revista”. Brilhou em várias redações, como um jornalista múltiplo. Os obituários, os três que li, não mencionam que entendia muito de economia. Por isso fez reportagens memoráveis nas publicações nas quais escreveu. Deixou sua marca na “Realidade”, em “O Estado de S. Paulo”, na revista “Veja”, nos jornais ditos alternativos “Opinião” e “Movimento”, “Ciência Ilustrada”, revista “IstoÉ” e “Folha da Tarde”.
As reportagens de economia de Raimundo Rodrigues Pereira eram como os artigos do jornalista Aloysio Biondi: às vezes, provocavam revisões no pensamento dos economistas e geravam mudanças nas ações dos governos.
Raimundo Rodrigues Pereira, cujo nome se tornou uma marca de excelência — como a de Lúcio Flávio Pinto (cuja trajetória foi magistralmente retratada por João Moreira Salles, em duas edições da revista “Piauí”; um material tão bom que merece ser levado ao formato de livro) —, morreu no sábado, 2, aos 85 anos, no Rio de Janeiro.
Nascido em Exu, no Estado de Pernambuco, em 1940, Raimundo Rodrigues Pereira estudou Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Não se formou dada a perseguição da ditadura civil-militar. Depois, formou-se em Física pela Universidade de São Paulo (USP), mas enveredou-se pelos caminhos de pedras do jornalismo.
Em 1968, aos 28 anos, participou da equipe que fundou a revista “Veja”. O diretor de redação era Mino Carta. Tornou-se um dos notáveis da equipe. Assim como Elio Gaspari, que sempre disse admirá-lo.
Em plena ditadura de Emilio Garrastazu Médici, no ano da graça de 1972, Raimundo Rodrigues Pereira foi convocado por Fernando Gasparian para editar o jornal “Opinião” (que inspirou a criação do Jornal Opção, em 1975. Herbert de Moraes Ribeiro era leitor das análises de jornalista).
Fernando Gasparian queria um jornalismo analítico e crítico. Era sua maneira de combater a ditadura. Raimundo Rodrigues Filho queria um jornal mais posicionado e, portanto, combatente. Por isso saiu do “Opinião” e fundou o “Movimento”, em 1975 (parou de circular em 1981).
O “Movimento” era um jornal de resistência à ditadura e, por isso, foi tremendamente censurado. Lembro-me que, no início da década de 1980, quando comecei a lê-lo, comprava as edições — disputadíssimas — na Banca do Marcão Araújo (filiado ao PC do B e estudante na Universidade Católica de Goiás), na Avenida Anhanguera, no Centro de Goiânia. Havia pequenas filas de espera pela chegada do jornal. Marcão chegava a reservar jornais para os clientes mais fiéis. Porque não dava para quem queria.
As reportagens e artigos do “Movimento” tinham a marca de Raimundo Rodrigues Pereira, quer dizer, eram analíticos, densamente críticos, mas raramente ficavam na mera panfletagem. Descortinavam, no mais das vezes, os equívocos da ditadura, em seus vários campos. Talvez seja possível sugerir que, discretamente, “Movimento” pautava jornais e revistas.
Fernando Morais e o jornalista faz-tudo
Jornalista e biógrafo de primeira linha, Fernando Morais deu depoimento sobre Raimundo Rodrigues Pereira: “O mais completo jornalista brasileiro. Pautava, apurava, escrevia, editava como nenhum outro. E, como se não bastassem todas essas virtudes, era um comunista desde sempre”. (Eu diria que, ao lado de Elio Gaspari, Washington Novaes e Lúcio Flávio Pinto, era o mais completo repórter patropi. Não já restrição de minha parte, e sim um acréscimo.)
O portal Diário do Centro do Mundo (DCM) pontua: “Raimundo acompanhava todas as etapas do processo jornalístico: da pauta à edição. Exigia precisão, profundidade e responsabilidade. Para ele, jornalismo não era apenas informar — era transformar”.
Sabe-se que Raimundo Rodrigues Pereira tinha especial interesse por ler e editar textos bem pesquisados e bem escritos. Mas não tinha paciência com textos mal ajambrados e mal formulados. As reportagens que editava ficavam melhores, mais precisas e rigorosas. Suas edições eram aulas de jornalismo.
A irmã do jornalista e o torturador Fleury
Uma irmã de Raimundo Rodrigues Pereira foi namorada do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos maiores torturadores da ditadura civil-militar.
Ressalva: o jornalista nada tem a ver com o fato de a irmã, uma psicóloga, ter namorado Sérgio Fleury. A história está documentada no livro “Autópsia do Medo — Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury” (Editora Globo, 656 páginas).
A irmã do notável jornalista, embora tenha namorado o delegado, não teve envolvimento em seus crimes.
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