Contos de Bento Fleury revelam os “segredos” do sertão para os leitores
Marina T. S. Canedo
Especial para o Jornal Opção
O escritor Bento Fleury, cujo nome completo é Bento Alves Araújo Jaime Fleury Curado, nascido na Cidade de Goiás em 1969, tem uma vasta e diversificada produção literária. São 55 livros, entre físicos e e-books.
Bento Fleury é mestre em Literatura e mestre e doutor em Geografia. Tem um currículo invejável em sua formação acadêmica e conta com centenas de publicações em livros, revistas e jornais. Ele é um dos escritores mais profícuos do Estado de Goiás.
Sua dedicação à Literatura e à Cultura goianas vem de longa data. Seu primeiro livro, “Ser(tão) Goiano” (Kelps, 1998, 127 páginas), traz no título a ambiguidade que remete a goianidade ao sertão.
Escrito aos 28 anos de idade, o escritor, regionalista e multifacetado, porque também é poeta e historiador, demonstra que seu conhecimento a respeito da goianidade iniciou-se já na infância. Seus primeiros anos, passados no meio rural, forneceram-lhe matéria prima vigorosa, substanciosa, da qual foi observador e ao mesmo tempo partícipe.
Seu senso de observação levou-o a abarcar um enorme cabedal de conhecimentos sobre inúmeros aspectos relativos à cultura do povo goiano. Pode-se dizer que “Ser(tão) Goiano” é uma joia da literatura goiana e deveria ser preservado em bibliotecas públicas e reeditado, tal o rico conteúdo.
Descrição perfeita do sertão goiano
“Ser (tão) Goiano” é um livro de contos. O instigante teor do livro aparece já no primeiro capítulo, no qual o autor apresenta o ambiente físico, cultural e histórico onde se passarão as histórias descritas nos contos.
Nesse capítulo, há uma descrição perfeita do que era a vida no sertão de Goiás em décadas passadas, quando a Cidade de Goiás ainda era a capital do Estado, e nos primórdios da nova capital, “a tal de Goiânia”. Preocupou-se ele em fazer um retrato fiel às origens, ao ambiente físico, aos habitantes da zona rural e das pequenas vilas e aos seus hábitos e costumes.
A linguagem utilizada pelo autor foi a do matuto goiano, quase que um dialeto. O falar culto não existia naquele ambiente e foi substituído pelos rudimentos de uma língua portuguesa completamente maltratada, desfigurada e quase irreconhecível, a qual o escritor maneja muito bem, fazendo-se entender.
Regras de gramática e ortografia não pertenciam ao mundo do conhecimento dos matutos, que eram, em sua maioria, analfabetos. Essa era a realidade do interior de Goiás em décadas passadas, o que não corresponde, nessa intensidade, evidentemente, aos dias de hoje.
Esse conhecimento profundo da alma sertaneja foi propiciado pelos anos em que o escritor Bento Fleury viveu no meio rural no município de Trindade, desde os 7 anos de idade até à idade adulta. É um relato minucioso, no qual estão incluídas as viagens nas jardineiras, as estradas de terra com seus mata-burros e porteiras, as atividades econômicas, sociais e religiosas de um povo simples e trabalhador. As crendices e fantasias populares povoam todos os relatos.
Contos jocosos e hilários
Preparado o ambiente, a apresentação da obra é seguida pelos contos. São vinte e três contos, jocosos e hilários. Escritor perspicaz, Bento Fleury captou a realidade do matuto goiano, suas limitações materiais, psicológicas e emocionais, enfim o mundo específico e particular em que viviam.
Seus contos são narrados na terceira pessoa, por um narrador anônimo. No entanto, o conto “Romaria”, que descreve a ida de uma família à romaria de Trindade, é narrado na primeira pessoa. A memória de uma criança é a narradora, e tudo indica ser o próprio escritor, utilizando-se de suas lembranças da infância.
Os contos, que são curtos, deixam entrever seu conteúdo, sempre hilário, desde os títulos: Um trem batuta em casa, Quem cala consente, A bicedada Braginata, Bastiana, a boa, Zé da Tióda, Garcinha, Esse tal de progresso, Benzuca, Os herege, Promessa, O malaia, O teste da cana, Romaria, Chinelinha, Tá veno?, A história do Lazim da Tôte, Zé Baú, Mestra Zuza, A guaiaba assassina, O peso do difunto, Lubizome, O voto e o vício, O engasgado.
Ora é a alegria de dona Gasparina, presenteada com um aparelho de rádio pelo velhaco do seu marido, seu Praxedes, que se transforma numa “tribuzana danada”, com a invasão diária dos vizinhos para ouvir o tal rádio (Um trem batuta em casa), ora é a argúcia e presença de espírito do doutor Liberato, velho juiz de Direito, que casa a Tininha com o rico defunto do Totó do Vale, alegando que “quem cala consente”, ante a pergunta se aceitava Tininha como esposa (Quem cala, consente).
Em “O Malaia”, o dito cujo, que era o funcionário da saúde pública exterminador do barbeiro, ganha arrego na casa do seu Valdemar para jantar e passar a noite. Por ter comido demais, pois passara o dia todo “fazendo cruz na boca”, passa a noite “gumitano” e “pondo as tripas pra fora”. E assim, de “causo” em “causo”, as histórias vão se sucedendo, cheias de malícia e bom humor.
Frases como “Esse negócio de instudá, só seive mode virá a cabeça das moça”, “Coloca as baiba de moio que o vizim tá ardeno”, “Sai Totó, vai deitá trem infernento!”, “O zóio do menino ficou um mundo véio de trem inchado”, “Vai miorá digêro!”, são amostras do vernáculo interiorano do livro.
Espírito supersticioso do matuto e riso solto
O último capítulo é dedicado a um glossário, que serve como ajuda ao melhor entendimento dos termos regionais.
A juventude do autor talvez tenha sido um elemento que deu à obra um caráter de ingenuidade e pureza, o que trouxe luz, espontaneidade e autenticidade ao texto. A ficção carregou consigo todos os aspectos de uma realidade plausível. Sua narrativa peculiar lança na ficção toda a carga da experiência vivida, dando aos textos status de veracidade.
Em seus contos, Bento Fleury capta o espírito desconfiado, manso e supersticioso do matuto e o transforma em situações onde o riso corre solto.
A estreia do contista Bento Fleury marcou o nascimento de um grande regionalista goiano. Seu livro deve ser usado como fonte de consulta sobre linguajar e costumes e acrescentado à lista dos grandes regionalistas goianos.
O escritor goiano Bernardo Élis, reconhecido nacionalmente, teve como preocupação a denúncia das injustiças sofridas pelos sertanejos e os desmandos do coronelismo. Sua literatura retrata tragédia e sofrimento, de modo geral.
Bento Fleury se contrapõe à visão trágica e nos oferece um outro ângulo de observação, uma perspectiva bem humorada e alegre do povo pobre do interior. Duas óticas que se complementam no entendimento da alma do povo goiano.
Marina T. S. Canedo, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.
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