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O dilema da acessibilidade no ensino superior

No dia 4 de janeiro foi comemorado o Dia Mundial do Braille. É uma oportunidade singular não apenas de prestigiarmos o avanço da comunidades cega e PcD no Brasil e no mundo, mas também de conhecermos um pouco mais sobre elas e, quem sabe, repensar a aparelhagem educacional sob uma nova perspectiva. Cabe destacar que a discussão não é apenas um discurso elegante travestido de aula expositiva, mas sim um convite ao debate, que está centrado no como incluir alunos em sala de aula. No contexto universitário, ao tema “comunidade PcD” não escapam os termos acessibilidade e inclusão, mas, mais que isso, alguns alunos de cursos de licenciatura e até mesmo alguns docentes formados se assustam com essas palavras, porque elas parecem evocar um dilema de difícil solução. Por um lado, o professor da educação básica já lida com diversas demandas que por vezes lhes extrapolam o limite: lida com burocracia excessiva, desvalorização da classe e recentes tensões centradas na relação família-escola. Por outro lado, o docente que não propõe atividades inclusivas e adaptadas pode incorrer no equívoco de a turma não progredir conjuntamente, contrariamente ao que se espera no processo educacional.  Nesse mesmo sentido, houve uma profusão das metodologias ativas; ou melhor, das terminologias das atividades ativas. Entre “sala de aula invertida” e “gamificação”, os alunos parecem enxergar um mar de adaptações extremamente complexas, que envolvem, por vezes, um planejamento muito mais demorado em casa, ou a aquisição de materiais didáticos do próprio bolso do professor.  É claro, deve haver maneiras exóticas e eficientes de ministrar conteúdos, mas fato é que o professor, no seu contexto real, não poderá coordenar todas essas maneiras diariamente, em todas as aulas, em todos os conteúdos. Uma aula bem planejada, com todos os requintes, é muito bem-vinda, mas, quando pensamos em acessibilidade e inclusão, precisamos refletir sobre hábitos diários, simples, que já tornam nossa prática profissional mais adaptada, sem requerer um esforço excessivo. Proponho aqui algumas maneiras de fazê-lo:     1) Adaptações linguísticas: Alguns termos parecem ofensivos a determinadas comunidades; importa conhecer mais sobre os termos que lhes são mais agradáveis: prefira surdo em vez de “surdo-mudo”, língua de sinais em vez de “linguagem de sinais”, pessoa com deficiência em vez de “pessoa com necessidades especiais”. 2) Avaliações diversificadas: Pense em misturar tipos distintos de avaliação, principalmente se explorarem habilidades distintas. Às vezes, um simples questionário pode se transformar em uma competição de perguntas e respostas entre equipes. Uma disciplina não precisa de muitas e muitas avaliações distintas; elas apenas devem garantir que o aluno explore habilidades variadas. 3) Converse com o aluno: Sabemos que, por exemplo, autismo é uma condição de pode manifestar-se em múltiplas formas e níveis. Por isso, além de consultar pareceres médicos, cabe conversar com o aluno PcD em particular, para averiguar se alguma adaptação pequena tornaria as aulas mais acessíveis. Alguns alunos com hipersensibilidade, por exemplo, têm receio de requerer usar abafadores de ruído em sala, temendo a reação do docente. 4) Troque ideias com pares: Às vezes, um colega professor pode ter tido bom-sucedimento em turma com alunos PcD e possa aconselhá-lo. Professores devem compartilhar suas experiências entre si, para que analisemos e comparemos criticamente estratégias de ensino. (*) Roberto Augusto Nunes Gandulfo é professor voluntário do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas na UnB. 

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