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Casos recentes em MS mostram que violência do machismo não se limita às mulheres

Em um Estado que registrou 39 feminicídios em 2025, três episódios ocorridos em menos de uma semana mostram que a violência associada ao machismo também tem produzido vítimas homens em Mato Grosso do Sul. Os episódios aconteceram no interior e na Capital, envolveram discussões motivadas por relacionamentos e terminaram com homicídio, suicídio e destruição patrimonial. Embora os alvos imediatos tenham sido homens, especialistas apontam que a raiz da violência é a mesma que sustenta casos de agressão doméstica e feminicídio: a dificuldade masculina de lidar com o fim da relação e com a autonomia da mulher. De acordo com o corpo técnico da CMB (Casa da Mulher Brasileira), esse tipo de comportamento está ligado ao sentimento de perda da posse, ego ferido e masculinidade ameaçada. “Há disputa de espaço e poder com outro homem e, muitas vezes, a intenção de atingir indiretamente a ex-companheira”, explicam as psicólogas Fernanda Camargo e Andressa Barbosa, junto da advogada e coordenadora municipal da CMB, Iacita Azamor Pionti. Assassinato seguido de suicídio após não aceitar o término O caso mais grave ocorreu no dia 30 de dezembro, no distrito de Quebra Coco, em Sidrolândia. Um homem matou a tiros o atual namorado da ex-companheira após uma discussão em via pública. A vítima, Josevaldo Silva, era morador da região. Testemunhas relataram que o autor não aceitava o fim do relacionamento e o novo envolvimento da ex, com quem teve três filhos. Após o crime, ele fugiu e chegou a publicar áudios de despedida nas redes sociais. Minutos depois, foi encontrado morto dentro de um carro, na saída da cidade, com ferimento por arma de fogo na cabeça. As circunstâncias das mortes seguem sob investigação. Ciúme e morte em bar Na madrugada do dia 29, em Campo Grande, Edison Renato Gil Gonçalves foi morto a tiros em um bar do Jardim Leblon. Conforme relatos à polícia, o crime teria sido motivado por ciúme, após o autor interpretar que a vítima teria olhado de forma desrespeitosa para sua esposa. Segundo testemunhas houve uma discussão; o suspeito deixou o local por alguns minutos e retornou armado, efetuando os disparos. O homicídio ocorreu em um ambiente público, sem histórico prévio entre os envolvidos e provocou correria e pânico entre clientes do estabelecimento. Carro queimado O terceiro episódio foi registrado no início de janeiro, no Parque dos Laranjais, em Campo Grande. Um homem incendiou o carro do primo após suspeitar que ele estaria se relacionando com sua ex-companheira. O boletim de ocorrência aponta que houve discussão e agressões antes de o autor atear fogo no veículo. O incêndio foi contido por moradores antes da chegada do Corpo de Bombeiros. Ninguém ficou ferido, mas houve prejuízo material, e o caso foi registrado como dano qualificado e incêndio.  Violência que extrapola o casal Segundo o corpo técnico da Casa da Mulher Brasileira, os três casos mostram que o machismo não produz violência apenas contra mulheres, mas atinge toda a rede ao redor. “O homem se sente inferiorizado perante outros homens, tem queda da autoestima e descontrole emocional. Em situações extremas, isso pode resultar em agressões letais ou até suicídio”, explicam. Mesmo quando a mulher não é a vítima direta, ela continua sendo afetada. As consequências incluem desestruturação familiar, impactos emocionais nos filhos, prejuízos patrimoniais e danos à saúde física e psicológica. “Esse modelo de masculinidade traz a mensagem do poder extremo sobre a mulher. Quando o controle se perde, o impacto emocional é tão grande que o agressor não sabe lidar com a frustração”, avaliam as especialistas. Enfrentamento não é imediato A maioria dos episódios, segundo a Casa da Mulher Brasileira, ocorre após o fim do relacionamento, especialmente quando o agressor não aceita a ruptura e reage de forma violenta diante de um novo vínculo da ex-companheira. “O machismo não se encerra no feminicídio. Ele pode ter outros desdobramentos letais”, afirmam. Como estratégia de enfrentamento, a instituição mantém um programa em parceria com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul voltado ao acompanhamento de homens autores de violência, com resultados considerados positivos na redução da reincidência. Ainda assim, especialistas defendem que a principal forma de prevenção passa pela informação e pela educação. “É necessário discutir essas questões nas escolas, universidades, presídios e espaços sociais para mudar os paradigmas das futuras gerações”, concluem.

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