Relatos de mulheres separados por quase três anos, mas marcados por agressões, ameaças e controle extremo, revelam como o ciclo da violência doméstica se repete mesmo após denúncias, prisões e medidas protetivas. Em Campo Grande, duas dessas histórias têm o mesmo nome no centro das acusações: Um advogado de 34 anos, preso em flagrante na última quarta-feira (17) e solto dois dias depois. As denúncias surgem em um momento crítico para Mato Grosso do Sul. Em 2025, o Estado já soma 39 feminicídios, o terceiro pior ano desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, atrás apenas de 2020, com 40 casos, e 2022, quando 44 mulheres foram assassinadas. Os registros de violência doméstica já ultrapassaram 20 mil neste ano, evidenciando que os crimes não começam na morte, mas em agressões que se repetem e se agravam com o tempo. “Ele me conquistou dizendo que queria me ajudar” A vítima mais recente, uma professora de 24 anos, procurou a reportagem após registrar boletim de ocorrência na 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Segundo ela, o relacionamento começou quando o advogado ofereceu ajuda para garantir pensão alimentícia para a filha. “Ele ganhou minha confiança, falava que queria mudar minha vida. Eu achei que poderia viver um conto de fadas, mas descobri que estava com um louco psicopata”, contou. Conforme o relato, o comportamento mudou rapidamente. A jovem afirma que passou a ser controlada, impedida de sair de casa e chegou a ficar trancada com a filha. “Ele me trancou dentro de casa numa sexta-feira e eu não consegui levar minha filha para uma consulta. Tentei quebrar o portão, foi uma confusão”, disse. Ela relata que conseguiu sair apenas ao pegar o carro do agressor. “Ele entrou junto e não queria sair por nada. Eu tive que arrancar com o carro. Só conseguimos sair na segunda-feira”, contou. Nos dias seguintes, a violência teria evoluído para chantagens e ameaças. Após um acidente envolvendo o veículo, a professora afirma que foi ameaçada de morte. “Quando ele viu que o carro estava batido, começou a dizer que ia me matar. Os vizinhos dele me ligaram pedindo para eu me esconder. Ele passou com o carro do meu lado e eu tive que entrar na casa de um vizinho e ligar para a polícia. Foi aí que ele foi preso”, relatou. O auto de prisão em flagrante registra ameaça e injúria no contexto de violência doméstica. A vítima solicitou medidas protetivas de urgência, incluindo afastamento, proibição de contato e suspensão de eventual posse de arma “Foi a mesma coisa comigo” O medo relatado pela professora não é isolado. Outra mulher, que manteve um relacionamento com o advogado em 2023, decidiu falar agora, após saber da prisão recente. À reportagem, ela contou que viveu três meses de relacionamento marcados por agressões físicas, perseguição e ameaças constantes. “Na época eu não consegui expor por medo. Ele é um advogado conhecido. Me senti culpada por acreditar”, afirmou. Segundo ela, além das agressões, houve ameaças de morte, perseguição e intimidação contra os filhos, que não são dele. “Ele me agrediu, quebrou um carro comigo dentro, me ameaçou várias vezes”, contou. A mulher afirma que perdeu um bebê durante o relacionamento, consequência direta do estresse vivido. “Eu morei com ele, vivia sob ameaça. No dia da agressão eu chamei a polícia. Ele foi preso, mas logo ficou solto”, relatou. Para ela, a repetição do padrão é clara. “Ele faz sempre a mesma coisa. Coleciona boletins de ocorrência. Quando soube que ele tinha sido preso de novo, pensei: vai atrás da menina. É assim. Parece que só vai sair da rua quando matar uma”, desabafou. Prisão, soltura e sensação de impunidade O advogado foi preso na noite de quarta-feira (17) e liberado na sexta-feira (19). No mesmo dia, publicou um vídeo nas redes sociais ironizando a prisão. Dentro de um carro, ao lado de outro advogado, afirmou, rindo: “Pra quem achou que eu tinha sumido, desaparecido, não deu”. Para as vítimas, a soltura rápida e o tom de deboche reforçaram a sensação de impunidade e ampliaram o medo. “Um dia depois ele já estava solto, debochando. Eu estou morrendo de medo, muito medo mesmo”, disse a professora. Os relatos, separados por anos, descrevem a mesma dinâmica: aproximação com promessas de ajuda, isolamento, controle, agressões psicológicas, ameaças e, por fim, o medo constante de que a violência avance para algo irreversível. A equipe de reportagem do Campo Grande News tentou contato com o advogado, que até a publicação da reportagem, não enviou posicionamento. O espaço segue aberto. Onde buscar ajuda Mulheres em situação de violência podem procurar a Casa da Mulher Brasileira, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher ou ligar 180, Central de Atendimento à Mulher. Em situações de risco imediato, o telefone é 190. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .