Vacina contra o câncer? Saiba como estão os tratamentos contra a doença em Goiás e no Brasil
A ideia de uma vacina contra o câncer, durante décadas tratada como promessa distante, começa a ganhar contornos concretos na ciência. Pesquisadores já têm candidatos prontos para testes em humanos e o Brasil pode integrar essa nova etapa de estudos clínicos.
Cientistas da Universidade de Oxford estiveram no país na última semana para discutir parcerias com instituições brasileiras e ampliar a realização de ensaios clínicos, especialmente em regiões onde determinados tipos de câncer são mais incidentes.
O tema foi debatido em encontro que reuniu centros de pesquisa, hospitais e representantes do Ministério da Saúde. A proposta é estruturar uma rede de colaboração em áreas como imunoterapia, inteligência artificial e desenvolvimento de vacinas terapêuticas.
Diferentemente das vacinas tradicionais, voltadas à prevenção de doenças infecciosas, as vacinas contra o câncer têm como objetivo estimular o sistema imunológico a reconhecer e destruir células tumorais. Uma das frentes mais avançadas utiliza tecnologias semelhantes às empregadas durante a pandemia de Covid-19, como o RNA mensageiro, que permite o desenvolvimento mais rápido de imunizantes.
Entre os projetos em estágio mais avançado está a LungVax, vacina contra o câncer de pulmão que deve iniciar testes clínicos em humanos. Também há pesquisas em andamento para câncer de mama, ovário e mieloma múltiplo.
Outra linha considerada promissora é voltada a tumores associados ao vírus Epstein-Barr, presente em mais de 90% da população mundial e ligado a cerca de 200 mil casos de câncer por ano.
Em nota ao Jornal Opção, o Ministério da Saúde afirmou que tem intensificado ações para inserir o Brasil no cenário global de pesquisas sobre vacinas contra o câncer, com foco na autonomia tecnológica e na redução da dependência de insumos estrangeiros.
A estratégia envolve parcerias internacionais, incentivo à pesquisa nacional e articulação entre instituições científicas e assistenciais. Um dos eixos centrais dessa política é a cooperação com a Universidade de Oxford, voltada ao desenvolvimento de vacinas com tecnologias de ponta, como o RNA mensageiro (mRNA) e abordagens de medicina personalizada.
Segundo a pasta, a iniciativa busca posicionar o país na fronteira da inovação em oncologia. No âmbito interno, o Ministério tem estimulado a formação de consórcios entre hospitais de excelência, centros de pesquisa e instituições científicas.
A proposta é fortalecer a produção nacional e ampliar a capacidade brasileira em estudos pré-clínicos e clínicos na área oncológica, integrando diferentes etapas da cadeia de inovação. De acordo com o Ministério, essas colaborações permitem alinhar capacidades técnicas, estruturar projetos conjuntos e ampliar a participação do país em pesquisas multicêntricas internacionais.
O financiamento das iniciativas conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que realiza chamadas públicas para fomentar projetos na área. A expectativa é consolidar uma base científica robusta que permita ao Brasil avançar no desenvolvimento de imunizantes contra o câncer.
Apesar dos avanços, a incorporação dessas vacinas ao Sistema Único de Saúde (SUS) ainda depende de uma série de fatores. O Ministério ressalta que será necessário comprovar, por meio de evidências científicas, a segurança, a eficácia e a relação custo-benefício das tecnologias.
Atualmente, os principais entraves para a implementação em larga escala são o alto custo de produção e a necessidade de infraestrutura adequada para a Medicina personalizada. Ainda assim, o objetivo da pasta é preparar o sistema de saúde para absorver inovações capazes de responder às demandas crescentes no tratamento do câncer no país. [Confira a nota na íntegra ao final da reportagem]
O que já é realidade?
Se as vacinas ainda estão em estágios de testes, umas mais avançadas que outras, o Jornal Opção foi buscar o que já é realidade no tratamento do câncer atualmente. O avanço é significativo, impulsionado por inovações como imunoterapia, terapias-alvo e pesquisas com vacinas.
A avaliação é do oncologista clínico Helano Carioca, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, em entrevista à reportagem. Segundo ele, os últimos 10 a 15 anos marcaram uma mudança profunda no enfrentamento da doença.
A oncologia nos últimos 10 a 15 anos teve um salto tecnológico muito importante, com a chegada da imunoterapia, das terapias-alvo e até formas modernas de quimioterapia, como os anticorpos conjugados com droga, afirmou.
Um exemplo concreto dessa evolução está no câncer de pulmão. “Hoje a gente tem pacientes mesmo com câncer de pulmão metastático vivos com 8, 10 anos depois do diagnóstico, o que antigamente era praticamente impossível”, disse.
Carioca explica que a imunoterapia se tornou um dos principais pilares do tratamento moderno. “Imunoterapia é um termo amplo, são terapias que ajustam a resposta do sistema imunológico”, destacou.
Ele detalha que os tratamentos mais utilizados atuam retirando “freios” do sistema imunológico. “O que essas terapias fazem é permitir que o sistema imune volte a agir contra o tumor. Para existir um câncer, ele precisa burlar o sistema imunológico”, explicou.
Apesar dos avanços, o especialista pondera que os resultados não são universais. “Dá a impressão de que funciona para todo mundo, mas não funciona. Existem tumores que não respondem bem, os chamados ‘tumores frios’, que não têm resposta imunológica ativa”, afirmou.
Outro avanço destacado são as terapias-alvo, que atuam diretamente em mutações específicas do tumor. “Todo tumor tem alterações genéticas, mas algumas são determinantes para o comportamento da doença. Quando você bloqueia esse ‘alvo’, a célula tumoral morre”, explicou.
Ele usa uma analogia para simplificar: “É como um avião: se você atinge o passageiro, nada acontece. Mas se atinge o piloto, você derruba o avião”. De acordo com o oncologista, cerca de um terço dos pacientes com câncer de pulmão já utiliza esse tipo de tratamento, muitas vezes por meio de medicamentos orais.
“Vacinas ainda estão dentro da pauta de estudos. Existe uma expectativa, mas é um caminho muito difícil”, disse Carioca. Ele lembra que a ideia não é nova. “O conceito de usar algo parecido com vacina para tratar câncer vem do final do século XIX. Mas transformar isso em algo efetivo levou muito tempo”, afirmou.
Com os avanços recentes em tecnologia de RNA, os mesmos que permitiram o rápido desenvolvimento de vacinas durante a pandemia, novas possibilidades surgiram. “Essa tecnologia está sendo adaptada para vacinas contra o câncer”, explicou.
Diferentemente das vacinas tradicionais, muitas propostas atuais buscam prevenir o câncer em pessoas de alto risco. “A ideia é estimular o sistema imunológico para agir antes que a doença se desenvolva, ainda em estágio pré-canceroso”, disse.
No entanto, o especialista alerta para os desafios. “Se você for à literatura, vai encontrar mais de 2.500 artigos sobre vacinas contra câncer nos últimos anos, muita coisa que deu errado”, pontuou. Um dos principais obstáculos é o próprio funcionamento do sistema imunológico.
“O corpo evita atacar a si mesmo. Como as diferenças entre células normais e tumorais às vezes são mínimas, o organismo pode simplesmente não reagir”, explicou. Além das vacinas, outra frente promissora são as terapias celulares, como as células CAR-T, já utilizadas no Brasil para alguns tipos de câncer hematológico.
“Você retira células de defesa do paciente, modifica em laboratório e devolve para combater o tumor. É uma estratégia importante, mas ainda com limitações para tumores sólidos”, afirmou. Para Carioca, o cenário atual é de evolução constante, mas com cautela.
“No papel, muitas dessas estratégias funcionam muito bem. Mas só a pesquisa vai dizer o que realmente vai se tornar tratamento efetivo”, concluiu.
Cautela com resultados iniciais
O desenvolvimento de vacinas contra o câncer, tanto para prevenção quanto para tratamento, tem avançado em diferentes frentes no mundo. Apesar do otimismo crescente, Helano Carioca destacou que a pesquisa na área exige tempo, validação científica rigorosa e acompanhamento de longo prazo.
Segundo o médico, há atualmente três grandes linhas de investigação envolvendo vacinas contra o câncer. Uma delas, ainda inicial, busca prevenir tumores, como no caso de estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Oxford focados em câncer de pulmão.
Outras duas estratégias, mais avançadas, são voltadas ao tratamento da doença. Uma dessas abordagens utiliza o chamado “pool de antígenos”, que consiste em desenvolver vacinas baseadas em características comuns encontradas em células tumorais.
“Você cria uma vacina contra alguns desses ‘cheiros’ do tumor para estimular o sistema imunológico”, explicou Carioca. A vantagem, segundo ele, é o potencial de aplicação em um grande número de pacientes, com custo relativamente menor.
“Seria uma terapia mais barata, um ‘teto’ que serve para vários pacientes”, afirmou. Por outro lado, a eficácia pode ser limitada. “Ela tem menos chance de funcionar, porque aposta que o tumor de todo mundo tem aquelas características, e isso não acontece”, ponderou.
Experiências anteriores, como uma vacina francesa testada há alguns anos contra o câncer de pulmão, apresentaram resultados iniciais positivos, mas não avançaram. “Deu resultado positivo, mas não foi muito consistente. Depois não foi mais para frente”, disse.
Outra linha considerada mais promissora é a das vacinas individualizadas. Nesse modelo, o tratamento é desenvolvido a partir do próprio tumor do paciente. “Eles fazem o sequenciamento genético do tumor e criam uma vacina específica para aquele indivíduo. Aquela vacina só serve para ele”, explicou.
A principal vantagem é a maior chance de eficácia e menor risco de reações adversas. No entanto, o custo e o tempo de produção são obstáculos relevantes. “É um tratamento muito mais caro, como o CAR-T, que pode chegar a um milhão de reais. E leva semanas para ficar pronto, o que pode permitir a progressão da doença nesse intervalo”, alertou.
Carioca também destacou que parte das pesquisas mais avançadas hoje envolve tumores associados a vírus, como o Epstein-Barr. Nesses casos, o sistema imunológico consegue identificar melhor os alvos da vacina.
“Como o antígeno é do vírus, ele não se confunde com o corpo humano. Isso facilita a resposta imunológica”, explicou. Estudos nessa linha têm mostrado resultados mais consistentes, especialmente em tumores de nasofaringe.
Apesar dos avanços, o oncologista reforça que o entusiasmo inicial precisa ser equilibrado com cautela. “No começo, o otimismo é muito alto. Mas, em pesquisa, a maior parte do que se testa não funciona”, afirmou.
Segundo ele, o processo de validação pode levar anos. “Alguns estudos demoram cinco, seis anos para mostrar se realmente há benefício.” Outro ponto de atenção é a forma como esses avanços são divulgados.
“Quem está fazendo pesquisa precisa de visibilidade para atrair investimento e pacientes. Mas isso pode gerar uma expectativa exagerada”, disse. Além das incertezas científicas, há o desafio da incorporação dessas tecnologias ao sistema público de saúde.
Para Carioca, o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta dificuldades para acompanhar o ritmo das inovações, principalmente por questões financeiras. “Existe um descompasso muito grande. São tratamentos muito caros, e o problema de financiamento não é só do Brasil, acontece no mundo todo”, afirmou.
Ele citou como exemplo a imunoterapia, que pode custar cerca de R$ 40 mil por mês. “É difícil de equacionar.” O especialista defende a adoção de critérios de priorização. “A gente precisa investir primeiro naquilo que tem mais impacto para o paciente e onde há maior necessidade”, disse.
Carioca também destacou que o Brasil tem papel relevante na participação em pesquisas clínicas, mas ainda é pouco expressivo na criação de novas tecnologias. “Hoje somos muito importantes na participação, mas não na criação das inovações”, afirmou.
De acordo com ele, o país representa cerca de 2,5% dos estudos registrados em bases internacionais. “A gente precisa participar mais, trazer essas pesquisas para serem testadas aqui e incluir pacientes brasileiros”, defendeu.
Apesar dos desafios, o profissional avalia que a tendência na oncologia é clara: terapias cada vez mais personalizadas e menos agressivas. “A imunoterapia, por exemplo, é menos tóxica que a quimioterapia tradicional”, disse.
Ele destaca que os avanços já impactam a sobrevida dos pacientes. “Se estivéssemos conversando em 2010, apenas 20% dos pacientes com câncer de pulmão metastático passavam de dois anos. Hoje, muitos vivem cinco, oito, até dez anos”, afirmou.
Para alguns casos, a doença tem se tornado crônica. “Tem paciente defendendo doutorado, trabalhando, vivendo praticamente de forma normal”, relatou. Ainda assim, ele reforça que o objetivo final continua sendo a cura.
“A gente quer ver mais disso, principalmente no SUS, onde está a maior parte da população.” Enquanto isso, a recomendação é acompanhar os avanços com esperança, mas também com prudência. “A gente torce para que funcione, mas precisa ver o resultado. É assim que a pesquisa acontece”, concluiu.
Em Goiás
O avanço no tratamento do câncer passa, necessariamente, pelos ensaios clínicos, estudos que testam novas drogas e tecnologias antes de sua adoção na prática médica. No Hospital de Câncer Araújo Jorge, esse processo já ocorre há mais de duas décadas, com participação em pesquisas internacionais e expansão recente da estrutura dedicada à área.
Segundo o coordenador médico do Centro de Pesquisa Clínica da instituição, Adriano Augusto Peclat de Paula, a oncologia é um dos campos que mais atraem investimentos da indústria farmacêutica.
“A pesquisa clínica, diferentemente da pesquisa acadêmica, é patrocinada pela indústria farmacêutica. Existe um interesse financeiro no desenvolvimento de novas tecnologias, novas drogas e novas terapias”, afirma.
Ele explica que esse interesse está diretamente ligado ao envelhecimento da população mundial. “A tendência é de aumento no número de casos conforme as pessoas vão ficando mais velhas. A expectativa de vida vem crescendo, e os gastos com oncologia também têm uma tendência de alta”, diz.
Os estudos clínicos seguem uma estrutura dividida em fases. “A fase 1 é feita em laboratório, com testes em células e animais. Já as fases 2, 3 e 4 envolvem seres humanos, com avaliação de eficácia, dose e segurança”, explica o médico.
Nos estágios mais avançados, os ensaios se tornam multicêntricos e internacionais. “O mesmo estudo que está acontecendo nos Estados Unidos, no Japão e na França pode estar acontecendo aqui no Brasil, em centros selecionados como o Araújo Jorge”, destaca.
Atualmente, a instituição participa de pesquisas em áreas como urologia, ginecologia e câncer de mama, e ampliou sua capacidade para abranger praticamente todos os campos da oncologia. “Nós aumentamos o centro de pesquisa clínica e estamos com potencial de angariar estudos em todas as áreas”, afirma.
O conceito de “vacina contra o câncer” ainda é motivo de debate e evolução. Adriano ressalta que nem sempre essas tecnologias seguem o modelo tradicional de imunização.
“Quando falamos em vacina, pensamos em uma injeção, mas esse conceito pode ser diferente. O BCG, por exemplo, usado contra tuberculose, é aplicado na bexiga para tratar câncer, estimulando o sistema imunológico”, explica.
Há também terapias mais personalizadas, como a produção de anticorpos a partir do próprio tumor do paciente. No entanto, ele pondera que essas estratégias ainda têm limitações. “São tecnologias que têm alguma resposta, mas ainda não apresentam resultados suficientes para uso em larga escala”, afirma.
Para o especialista, os ensaios clínicos são essenciais para o avanço da medicina. “Sem os estudos clínicos, nós não conseguimos fazer a medicina avançar”, diz. Ele lembra que, após abusos históricos, como os ocorridos na Segunda Guerra Mundial, foram criadas normas rigorosas para proteger os participantes.
“O principal fundamento é não gerar malefício. Antes de beneficiar, não podemos causar dano. Todos os estudos são supervisionados por órgãos como a Anvisa e comitês de ética”, destaca. Os participantes, chamados de “sujeitos de pesquisa”, têm acesso a tratamentos inovadores.
“Eles não são cobaias. São pacientes que recebem acompanhamento rigoroso e têm acesso a drogas altamente tecnológicas, muitas vezes indisponíveis até mesmo para quem pode pagar”, afirma.
O tempo para que uma nova terapia chegue ao uso clínico é longo. “A maioria dos estudos leva de cinco a seis anos para ter resultados finais”, explica Adriano. Ele cita como exemplo pesquisas iniciadas em 2018, cujos resultados devem ser divulgados agora.
“São cerca de oito anos desde a inclusão do primeiro paciente até a publicação dos dados.” Apesar dos avanços, o médico adota cautela quanto à ideia de uma solução única para o câncer.
“Não acredito que teremos uma vacina que previna todos os tipos de câncer. Mas já temos exemplos importantes, como a vacina contra o HPV, que previne o câncer de colo do útero”, afirma.
Ainda assim, ele vê um cenário promissor. “A todo momento surgem novos estudos, com resultados positivos ou negativos, que ajudam a direcionar a ciência. Isso amplia as possibilidades de tratamento e nos aproxima de transformar esses avanços em prática clínica”, conclui.
Cora
Com menos de um ano de funcionamento efetivo, o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (Cora) já busca se consolidar como um polo de tratamento especializado em câncer infantil no Centro-Oeste.
Em entrevista ao Jornal Opção, o oncologista pediátrico Ygor Moura destacou a estrutura recente, os avanços tecnológicos e a integração com protocolos internacionais como pilares do serviço.
Segundo o médico, o hospital iniciou suas atividades gradualmente. Neste primeiro momento, o atendimento é voltado exclusivamente ao público pediátrico, mas há planos para expansão futura para oncologia adulta.
A proposta do Cora surge diante de uma lacuna no atendimento regional. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer, Goiás registra entre 250 e 300 novos casos de câncer infantil por ano.
“Uma parcela muito pequena conseguia chegar ao Hospital Araújo Jorge. A nossa vontade é fazer a diferença para que o paciente goiano não precise sair do Estado”, disse. O hospital adota um modelo de subespecialização entre oncologistas, com profissionais dedicados a tipos específicos de tumores, como leucemias, no sistema nervoso central e cânceres ósseos.
“Isso facilita o estudo e melhora a qualidade do serviço”, destacou. Entre os diferenciais tecnológicos, Moura cita a presença de uma ressonância magnética integrada ao centro cirúrgico, recurso raro na região.
“O cirurgião pode, durante o procedimento, avaliar em tempo real se o tumor foi totalmente retirado e decidir se precisa ampliar a cirurgia”, explicou. Além disso, o Cora já oferece terapias modernas, como imunoterapia, terapia-alvo e transplante de medula óssea.
“São poucos centros no Brasil que realizam transplante de medula. A gente já tem um setor preparado para esses pacientes”, afirmou. A personalização do tratamento é outro eixo central. Segundo Moura, o objetivo vai além da cura: busca-se reduzir os impactos a longo prazo.
“A ideia não é só curar, mas garantir que essa criança tenha o menor efeito colateral possível e possa ser um adulto saudável, produtivo, com vida normal”, disse. O médico citou avanços no tratamento de leucemias, com uso de terapias-alvo que atuam diretamente em alterações genéticas.
“Hoje, algumas leucemias que eram altamente letais podem ser tratadas sem quimioterapia, com medicações específicas”, afirmou. Entre os exemplos de imunoterapia, ele mencionou o uso de rituximabe para linfomas e o início da aplicação de dinutuximabe em casos de neuroblastoma.
Mesmo com o número reduzido de casos em oncologia pediátrica, o Cora integra redes de cooperação científica. “A gente participa de grupos cooperativos. Casos são discutidos com especialistas de diferentes regiões e até da América Latina”, explicou Moura.
Esse modelo permite ampliar o conhecimento sobre doenças raras e alinhar condutas terapêuticas. “É muito comum a gente participar desses protocolos, tanto de pesquisa quanto de tratamento”, acrescentou.
Outro destaque do Cora é o setor de reabilitação, voltado tanto à recuperação quanto à prevenção de sequelas. “A gente tem robôs motorizados que auxiliam na recuperação de movimentos e ajudam a criança a se reintegrar na sociedade”, disse.
Mesmo sendo um serviço recente, o oncologista avalia que o hospital já opera em nível equivalente a centros consolidados. “A gente conseguiu montar uma estrutura de primeiro mundo. Não perde em nada para outros serviços grandes do Brasil”, afirmou.
Segundo ele, o Cora segue rigorosamente protocolos internacionais. “Tudo que os protocolos americanos e europeus recomendam, a gente consegue fazer 100% aqui. Isso permite tratar com dignidade essas famílias”, concluiu.
SES-GO
Nos últimos cinco anos, o Estado de Goiás tem ampliado a oferta de serviços e incorporado novas tecnologias no tratamento do câncer na rede pública, segundo nota da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) repassadas ao Jornal Opção.
A estratégia envolve desde a descentralização do atendimento até a adoção progressiva de terapias mais modernas, alinhadas às diretrizes do Ministério da Saúde. Um dos principais avanços apontados pela pasta é a criação e o fortalecimento de unidades especializadas, como o Cora, voltado à oncologia pediátrica.
Além disso, houve a habilitação do Hospital do Centro Norte Goiano como Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), o que contribui para ampliar o acesso a tratamentos mais complexos em diferentes regiões do Estado.
A SES-GO também destaca a expansão da rede de policlínicas, hospitais regionais e serviços de diagnóstico. “Ampliamos a rede de diagnóstico por imagem e de biópsias, incluindo unidades estaduais e contratualizadas”, informou a secretaria em nota.
A descentralização dos serviços é um dos eixos centrais da política estadual. Segundo a pasta, a estratégia busca reduzir a necessidade de deslocamento de pacientes para grandes centros, garantindo maior capilaridade no atendimento e acesso à alta complexidade dentro do próprio território goiano.
No campo das terapias, o Estado afirma acompanhar as recomendações do Ministério da Saúde e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Há, segundo a SES, um “avanço progressivo” na adoção de novas tecnologias, ainda que dentro dos protocolos nacionais.
A imunoterapia, considerada uma das abordagens mais inovadoras no tratamento oncológico, ainda está em fase de implementação mais ampla no SUS. A recente Lei nº 15.379, de 6 de abril de 2026, prevê sua inclusão nos protocolos clínicos, mas a forma de acesso ainda está em discussão.
Até o momento, há recomendação para uso de medicamentos como pembrolizumabe e nivolumabe no tratamento de melanoma. Já as terapias-alvo, que atuam de forma mais específica sobre células cancerígenas, já fazem parte dos protocolos do SUS, principalmente em casos de câncer de mama e alguns tipos de leucemia.
Goiás segue as diretrizes nacionais, sem protocolos próprios que incluam medicamentos fora da lista aprovada pela Conitec. Entre as iniciativas destacadas está o programa Goiás Todo Rosa, que oferece testes genéticos como BRCA1 e BRCA2 pelo SUS.
A medida é voltada especialmente à prevenção e ao direcionamento terapêutico em casos de câncer de mama e ovário hereditários. Segundo a secretaria, Goiás foi pioneiro na oferta desses exames na rede pública, consolidando uma base para a medicina personalizada, abordagem que busca adaptar o tratamento às características genéticas de cada paciente.
Na área de radioterapia, o Estado tem investido na utilização de aceleradores lineares, equipamentos que permitem maior precisão no tratamento e reduzem os efeitos colaterais. A tecnologia também possibilita o uso do hipofracionamento, técnica que diminui o número de sessões necessárias.
Na cirurgia oncológica, a SES aponta a ampliação da capacidade dos centros especializados, com melhor estrutura e integração com unidades de terapia intensiva. O modelo adotado em unidades como o Cora é citado como exemplo de maior segurança e qualidade assistencial.
Apesar dos avanços, a secretaria reconhece que a incorporação de novas tecnologias ocorre de forma gradual e depende das diretrizes nacionais, o que ainda impõem desafios para a ampliação do acesso a terapias mais inovadoras na rede pública. [Confira a nota na íntegra ao final da reportagem]
Papel da universidade pública
Os avanços científicos e tecnológicos têm provocado uma mudança profunda no tratamento do câncer, levando especialistas a classificarem o momento atual como uma verdadeira virada de paradigma na oncologia. A avaliação é do professor oncologista da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Victor Lisita, em entrevista ao Jornal Opção.
Segundo o especialista, a combinação de diagnósticos mais precoces e terapias cada vez mais direcionadas tem ampliado significativamente as chances de cura e controle da doença.
“A oncologia vive um momento de virada paradigmático. Além dos avanços tecnológicos dos exames diagnósticos, permitindo detecção mais precoce de diversos tipos de câncer, nós observamos também a transição dos tratamentos citotóxicos para tratamentos com maior precisão, baseados em marcadores moleculares”, afirma.
Lisita destaca que essa transformação está diretamente ligada ao avanço da chamada medicina de precisão, que utiliza informações genéticas dos tumores para definir o tratamento mais adequado para cada paciente.
“O sequenciamento genômico identifica mutações que nos permitem utilizar medicamentos direcionados. Além disso, o advento da imunoterapia e dos anticorpos conjugados à droga revolucionou o tratamento de diversos tipos de câncer, aumentando a sobrevida dos pacientes, mesmo em casos de doença metastática”, explica.
Na avaliação do oncologista, os resultados práticos dessas inovações já são evidentes. Ele cita como exemplo o melanoma metastático, que há duas décadas apresentava prognóstico extremamente limitado.
“Há 20 anos, a sobrevida mediana desses pacientes era menor que 12 meses. Hoje, com a imunoterapia, mais de 50% estão vivos em cinco anos. Em muitos casos, o câncer passou de uma doença fatal para uma doença crônica controlável”, afirma.
Entre os principais avanços recentes, Lisita aponta a consolidação de terapias mais específicas e menos agressivas ao organismo. “A oncologia atual é marcada pela medicina de precisão, com terapias direcionadas que superam a quimioterapia inespecífica. Destacam-se a imunoterapia, os anticorpos conjugados a drogas, as terapias-alvo e as terapias celulares, como o CAR-T”, diz.
Essas novas abordagens, segundo ele, têm proporcionado ganhos expressivos não apenas em tempo de vida, mas também em qualidade. “Tivemos ganhos significativos de sobrevida, muitas vezes mais do que o dobro, mantendo a qualidade de vida dos pacientes”, ressalta.
Outro avanço importante é a ampliação do acesso ao tratamento personalizado. “Há 10 anos, menos de 20% dos pacientes eram elegíveis para terapias-alvo. Hoje, mais de 50% se beneficiam dessas estratégias baseadas em marcadores biomoleculares”, afirma.
O oncologista também avalia que o Brasil tem condições de participar ativamente desse cenário de inovação. “Temos muitos centros de pesquisa clínica e pesquisadores com produção científica relevante. Um exemplo é o desenvolvimento da terapia CAR-T Cell 100% nacional, colocando o país como pioneiro na América Latina no tratamento de neoplasias hematológicas”, destaca.
Nesse contexto, as universidades públicas desempenham papel estratégico. “Elas são fundamentais na inovação tecnológica, na pesquisa e na formação de profissionais especializados. Além disso, por meio de projetos de extensão, ampliam o acesso da população a essas tecnologias”, afirma.
Em Goiás, Lisita vê potencial crescente de inserção em pesquisas avançadas. “O Estado já vem se destacando. Fomos o primeiro do país a implantar testes de mutação BRCA para pacientes com câncer de mama e seus familiares, além da inauguração recente de um serviço de radioterapia 100% SUS”, conclui.
Rede privada
Para o oncologista Oren Smaletz, do Hospital Israelita Albert Einstein, o debate sobre vacinas contra o câncer tem ganhado espaço entre pacientes e especialistas, mas ainda é cercado por expectativas que nem sempre correspondem à realidade científica.
Ao Jornal Opção, ele salienta que já existem imunizações eficazes para prevenir alguns tipos de câncer, mas as chamadas vacinas terapêuticas ainda são limitadas e não representam, por ora, a principal estratégia de tratamento.
“Esse é um tema extremamente interessante, até porque existe muito uma fantasia de que as vacinas vão ser o maior tratamento para o câncer”, afirma o médico. “Quando a gente precisa viver uma fantasia, a gente pode olhar para algo mais real, que são as vacinas que ajudam a prevenir o câncer.”
Entre os exemplos concretos, Smaletz cita a vacina contra o HPV, capaz de reduzir significativamente o risco de câncer de colo do útero, além de tumores de pênis, canal anal e orofaringe. Outro caso é a imunização contra a hepatite B, que previne a infecção viral e, consequentemente, diminui a incidência de cirrose e câncer de fígado.
“Então, essa realidade de vacinas que previnem o câncer já existe e é muito importante”, ressalta. No campo do tratamento, porém, o cenário é diferente. Embora haja avanços importantes, as chamadas “vacinas contra o câncer” ainda não são amplamente utilizadas na prática clínica.
O especialista explica que é preciso diferenciar conceitos. “A gente já usa hoje a imunoterapia, principalmente os inibidores de checkpoint, mas eles não são considerados vacinas. São anticorpos monoclonais que estimulam o sistema imunológico a atacar o câncer.”
Essas terapias, que revolucionaram a oncologia nos últimos anos, foram reconhecidas com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2018, concedido aos pesquisadores James Allison e Tasuku Honjo pelo desenvolvimento dos chamados inibidores de checkpoint imunológico.
Há também tentativas de desenvolver vacinas terapêuticas, como no caso do câncer de próstata. “Existe uma vacina nesse sentido, chamada Provenge, mas ela ainda não está disponível no Brasil e tem baixa aceitação fora”, explica Smaletz.
Enquanto isso, outras frentes de inovação têm apresentado resultados mais consistentes. No Einstein, destaca o oncologista, o Centro de Medicina de Precisão vem permitindo tratamentos cada vez mais individualizados.
“A gente faz um perfilamento genético do tumor e consegue identificar qual é a melhor medicação para cada paciente”, diz. “Isso já é realidade em câncer de pulmão, intestino e mama.” Outra tecnologia promissora é a terapia CAR-T cell, uma forma avançada de imunoterapia que modifica células de defesa do próprio paciente para combater o câncer.
“É um novo jeito de tratar, especialmente em doenças hematológicas, como linfomas e mieloma”, afirma. Para Smaletz, o conjunto desses avanços tem mudado o curso da doença. “O câncer, nos últimos anos, está se tornando uma doença crônica. Muitas vezes não conseguimos curar, mas conseguimos fazer com que o paciente viva com a doença por muito tempo, com qualidade.”
Ele compara a evolução do tratamento oncológico ao manejo de enfermidades como hipertensão e diabetes. “Assim como essas doenças, em que a cura nem sempre é possível, o objetivo passa a ser o controle a longo prazo”, conclui.
Nota do Ministério da Saúde na íntegra:
“O Ministério da Saúde atua estrategicamente para inserir o país no cenário global de pesquisas sobre vacinas contra o câncer, fortalecer a autonomia nacional e reduzir a dependência de insumos estrangeiros para os cuidados da população. A iniciativa junto à Universidade de Oxford com o uso de tecnologias como o RNA mensageiro e abordagens de medicina personalizada é um modelo de como o Brasil trabalha para o desenvolvimento de tecnologias de vanguarda neste campo.
Ainda neste contexto, o ministério incentiva a cooperação entre instituições científicas e assistenciais, como o consórcio que reúne hospitais de excelência, centros de pesquisa e instituições científicas, que fomentam a produção nacional e ampliam a capacidade nacional de pesquisa pré-clínica e clínica em oncologia, para fortalecer a integração entre as diferentes etapas da cadeia de inovação e criar condições mais favoráveis para a participação do Brasil em estudos internacionais.
A articulação institucional promovida junto ao A.C. Camargo Câncer Center e Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) alinha capacidades, estrutura parcerias e amplia a capacidade de estudos clínicos no país, fortalecendo a participação brasileira em pesquisas multicêntricas. Paralelamente, as parcerias com o CNPq garantem o fomento estruturado a essas iniciativas por meio de chamadas públicas.
A futura integração dessas vacinas ao SUS depende rigorosamente de evidências de segurança, eficácia e custo-efetividade. Atualmente, os maiores obstáculos para a implementação pública envolvem o alto custo de produção e a necessidade de infraestrutura para medicina personalizada. O objetivo central é preparar o sistema de saúde para adotar inovações que respondam de forma eficiente às demandas oncológicas da população.”
Nota da SES-GO na íntegra:
“Nos últimos 5 anos o estado de Goiás avançou muito na assistência ao paciente oncológico.
Destacamos a criação e fortalecimento de unidades estratégicas como o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (CORA) (oncologia pediátrica);
- Habilitação do Hospital do Centro Norte Goiano em Unacon, ampliação de hospitais regionais e policlínicas, reduzindo assim o deslocamento dos pacientes e maior acesso à alta complexidade, buscando o princípio da descentralização dos serviços dentro do território do estado.
- Ampliamos a rede de diagnóstico de imagem;
- Ampliamos a rede de biópsias (policlínicas e unidades contratualizadas e estaduais que atendem oncologia).
Há um avanço progressivo na incorporação tanto de novas tecnologias quanto terapias no estado. Sempre andando lado a lado com as orientações do Ministério da Saúde.
A Lei para inclusão da imunoterapia nos protocolos clínicos e nas diretrizes terapêuticas do câncer é recente (LEI Nº 15.379, DE 6 DE ABRIL DE 2026) , e as imunoterapias com recomendação de incorporação pela CONITEC, ainda são objeto de discussão sobre a forma de acesso. No momento existe a recomendação de incorporação do pembrolizumabe e nivolumabe para o tratamento de melanoma.
No SUS já existem protocolos que utilizam terapias-alvo para o tratamento do câncer principalmente câncer de mama e alguns tipos de leucemia. O Estado de Goiás segue as Diretrizes do Ministério da Saúde para o tratamento oncológico, não possuindo protocolo instituído pela SES que inclua medicamentos diferentes dos já incorporados através da CONITEC.
Destaca-se o Programa Goiás Todo Rosa, que oferece testes genéticos, como BRCA1 e BRCA2, pelo SUS, contribuindo para a prevenção e o direcionamento de tratamentos personalizados. Goiás foi pioneiro nacional nessa estratégia, consolidando, na prática, uma base para a medicina personalizada, com aplicação mais expressiva especialmente nos casos de câncer de mama e câncer de ovário hereditário.
Goiás tem demonstrado esforços concretos para modernizar sua rede oncológica, incorporando tecnologias que aumentam a segurança, a efetividade e a qualidade do cuidado ofertado aos pacientes do SUS.
Na radioterapia, destaca-se a utilização de aceleradores lineares , que permitem uma radioterapia mais conformada e precisa, além da possibilidade de adoção do hipofracionamento, reduzindo o número de sessões e proporcionando menor toxicidade ao paciente. Já na cirurgia oncológica, observa-se a expansão da capacidade cirúrgica, com centros mais estruturados e maior resolutividade, além da integração com unidades de terapia intensiva e cuidados intensivos, como exemplificado pelo CORA, o que contribui para maior segurança e qualidade no tratamento.”
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