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Saiba sobre o romance de Flaubert que é melhor do que Madame Bovary

Soraya Castro

Especial para o Jornal Opção

Estava lendo “A Orgia Perpétua”, o ensaio de Mario Vargas Llosa sobre Gustave Flaubert, mais especificamente sobre “Madame Bovary” (aquele livro que todo estudante de ensino médio conhece pelo nome, mas poucos leram de verdade), quando percebi algo que não consegui ignorar: o que o escritor peruano chama de insuficiência estrutural do real, a ideia de que a realidade nunca consegue satisfazer plenamente o que o desejo humano exige dela, não é apenas o motor da personagem Emma Bovary. É o esqueleto inteiro da escrita de Flaubert.

A comparação com “A Educação Sentimental” (Penguin/Companhia das Letras, 560 páginas, tradução de Rosa Freire D’Aguiar), outro romance do francês, foi quase inevitável. Eu tinha acabado de ler o romance, por indicação do meu terapeuta, diga-se de passagem.

Gustave Flaubert (1821-1880 — viveu 58 anos) dispensa apresentações. Grande nome do realismo francês, rompeu de vez com o idealismo romântico para retratar a vida como ela é. O que poucos sabem é que Flaubert fez isso duas vezes, e de formas completamente diferentes.

Publicado em 1869, “A Educação Sentimental” acompanha Frédéric Moreau, um jovem provinciano que chega a Paris com ambições vagas (literárias, políticas, amorosas) e passa anos sendo corroído pela própria incapacidade de concretizá-las.

No centro de tudo está Madame Arnoux, mulher casada por quem Frédéric nutre uma paixão que sobreviverá intacta por décadas, justamente porque nunca será testada pela realidade.

Ao fundo, a Revolução de 1848 que promete transformar a França e fracassa com a mesma elegância discreta com quem, no plano individual, Frédéric fracassa em tudo. O romance não separa os dois planos: o século desmorona por meio dos indivíduos.

Flaubert era obcecado pela frase precisa, pela indiferença cirúrgica, pela recusa ao sentimentalismo fácil (deve ser por esses motivos que eu — e o mundo — o considere um gênio). Em “Madame Bovary”, essa frieza serve para dissecar uma mulher que deseja demais e age sem freio. Já em “A Educação Sentimental”, ela serve para algo mais perturbador: dissecar um homem que deseja com igual intensidade e não faz absolutamente nada.

Essa é a diferença que importa. Emma e Frédéric compartilham a mesma condição de base, o desejo que excede o que a vida oferece, no entanto, respondem a ela de formas opostas.

Emma age de forma descontrolada e caminha para a autodestruição. Frédéric recua, espera, adia. Se Emma representa o excesso de ação movido pela ilusão, Frédéric é a paralisia produzida por ela.

Flaubert é igualmente impiedoso com os dois e essa simetria cruel é uma das marcas do romance (essa constatação vale uma nota mais que pessoal, quase uma confissão: sou alucinada por autores que não criam compaixão por suas personagens. Se meu terapeuta ler esse ensaio, penso que a próxima sessão será um pouco mais longa…).

O amigo do protagonista, Deslauriers, complica ainda mais o quadro. Ao contrário de Frédéric, ele tem projeto, ambição, disposição para agir. E age, de fato, mas seus atos nunca produzem transformação real. É como se cada avanço apenas reorganizasse uma frustração sob outra forma, sem jamais romper o ciclo.

Aqui, me ocorreu, de forma completamente não autorizada pela teoria literária, a imagem do coronel Aureliano Buendía, de “Cem Anos de Solidão”. São universos absolutamente distintos (García Márquez e Flaubert fazem coisas radicalmente diferentes), só que a estrutura emocional de Aureliano, aquela sucessão de trinta e duas revoluções armadas e todas perdidas, termina por esvaziar o próprio sentido da luta, e ressoa estranhamente em Deslauriers: a ação que se torna movimento circular, que gira sem chegar a lugar algum.

Frédéric, Deslauriers, Aureliano: três nomes, três aventuras, três formas de não viver de fato e explicações de sobra para cada fracasso.

“A Educação Sentimental” radicaliza esse diagnóstico. Agir não resolve; não agir, também não. Sonhar, menos ainda. Flaubert não tem piedade. De ninguém. E essa recusa ao consolo é o que o distingue de quase tudo que veio antes dele.

Isso torna o livro desconcertante para quem espera um romance de formação convencional: aquele arco em que o jovem vai ao mundo, sofre, aprende, amadurece. Frédéric vai ao mundo (ou tenta, ao menos), sofre muito, não aprende nada e chega ao final essencialmente o mesmo. Em vez de formação, dispersão. Em vez de amadurecimento, repetição. O título promete uma educação, porém, a narrativa entrega o avesso, e o autor não parece minimamente incomodado com isso.

Imaginação preserva o que a realidade destruiria

Quando o romance entra na fase final, nos seus últimos suspiros, Madame Arnoux reaparece. Anos depois, envelhecida e um pouco mais aberta.

O amor de Frédéric sobreviveu intacto e ele percebe, naquele momento, que sobreviveu exatamente porque nunca foi vivido. A imaginação preserva o que a realidade destruiria. É uma descoberta e uma condenação ao mesmo tempo, e Flaubert nada comenta, apenas registra. E essa distância, essa recusa absoluta ao julgamento fácil, é o que torna o romance insuportavelmente moderno.

Como se não bastasse, a cena final traz uma pequena crueldade; ao relembrar a juventude, Frédéric e Deslauriers chegam a um consenso sobre o melhor momento de suas vidas: uma tentativa frustrada de entrar em um bordel. Não entraram, nada aconteceu. Ainda assim, é isso o que sobrevive.

Eu soltei uma risada nesse final, achei genial, mas, depois, analisando melhor, percebi que não tinha graça, foi um final devastador. Apesar disso, segue sendo meu momento favorito do livro, e escrevo isso ainda rindo um pouco, e constrangida por achar graça que o auge da vida dos dois foi algo que nem chegou a acontecer.

“A Educação Sentimental” não é uma história de amor frustrado, nem o retrato do homem fraco. É um diagnóstico frio, formal, impiedoso de uma forma de existir em que nem o desejo, nem a ação e nem o tempo são capazes de produzir sentido duradouro. Frédéric não perde a vida, ele simplesmente nunca chega a habitá-la. Meu terapeuta, que indicou o livro, provavelmente sabia o que estava fazendo.

Nada se realiza. Tudo se move, mas nada chega.

Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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