Livro de Valério Luiz discute obra de Hannah Arendt e o nazista Adolf Eichmann
Adriano Correia
Nesse ensaio original, de prosa precisa e fluente, Valério Luiz de Oliveira Filho enfrenta o difícil tema do mal tendo em consideração não apenas suas implicações jurídicas e morais, mas também ontológicas.
Valério Luiz filho leva em consideração não apenas a pluralidade humana, mas a teia de relações humanas que se constitui a partir das iniciativas e interações entre seres ativamente distintos como os humanos. Nesse enfrentamento, dialoga diretamente com o “ponto de referência incontornável” que são as reflexões não sistemáticas de Hannah Arendt sobre a filosofia moral, principalmente a partir da conduta, da fala de Adolf Eichmann, assim como de sua personalidade ou da ausência dela.
Além disso, Valério Luiz Filho mobiliza as reflexões de Platão e Aristóteles sobre o “domínio dos assuntos humanos”, as noções de mal em Agostinho e Kant, as críticas de Nietzsche à tradição moral e as críticas de Arendt à noção kantiana de mal radical, e recorre à teoria do reconhecimento em Hegel.
O autor dedica ainda especial atenção à relação das concepções de mal da tradição do pensamento moral com a teologia, o que fez que várias concepções de mal se constituíssem antes de tudo como teodiceias.
Em um breve texto de 1945, Hannah Arendt afirmou: “O problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual europeia do pós-guerra” . Não o foi, surpreendentemente.
A despeito das numerosas catástrofes que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), não apenas nas numerosas guerras, a reflexão filosófica sobre o problema do mal ficou aquém de numerosos temas relevantes despertados pelos aspectos sombrios de nossa época. Possivelmente em grande medida devido a isto as reflexões dispersas e não sistemáticas de Arendt tenham ganhado tanta relevância a ponto de Susan Neimann poder afirmar em sua clássica obra sobre o mal no pensamento moderno que “Eichmann em Jerusalém: um Relato Sobre a Banalidade do Mal” (1963), de Arendt, é “a contribuição filosófica mais importante para o problema do mal no século XX” , excedendo significativamente as pretensões da autora com seu relato do julgamento.
Apesar de não sistemáticas, as reflexões de Arendt sobre o problema do mal foram frequentes a partir da polêmica desencadeada por “Eichmann em Jerusalém”.
Já em 1964, Hannah Arendt iniciou uma investigação aprofundada sobre os temas que emergiram das críticas ao seu livro — aquelas que, embora muitas vezes agressivas, não se limitavam à simples calúnia.
Entre os tópicos abordados estavam questões sérias como a mentira organizada, que chamou a atenção dela a partir da campanha internacional orquestrada contra seu livro.
Em seus primeiros posicionamentos, Arendt reiterava que seu trabalho tinha caráter estritamente descritivo, apresentando os fatos como observados no julgamento de Eichmann. Ressaltava, ainda, que a expressão “banalidade do mal” devia ser entendida como um ensinamento extraído da experiência, e não como uma teoria sistemática sobre a natureza do mal.
Além disso, a imagem de Eichmann retratada por ela era, segundo afirmava, aquela que surgiu concretamente durante o processo judicial.
Com o passar do tempo, no entanto — já a partir do posfácio incluído na 2ª edição de “Eichmann em Jerusalém” —, Arendt começou a se debruçar sobre questões mais amplas e filosoficamente densas, que ela reconhecia como pertinentes.
Entre elas, destacavam-se reflexões sobre o que caracteriza o mal em sua manifestação nas ações humanas, especialmente em formas extremas como a crueldade desinteressada ou o cometer o mal pelo mal; os desdobramentos do conceito de “banalidade do mal”; sua própria descrição de Eichmann como alguém destituído da capacidade de pensar; e, finalmente, a possibilidade de que o pensamento possa nos proteger contra a prática do mal e de que o juízo seja um guia possível em um contexto de ruptura da tradição do pensamento político e moral.
O diálogo com Arendt articula a discussão de Valério Luiz de Oliveira Filho em seu livro, o qual, todavia, encontra-se muito distante de qualquer motivo estritamente exegético.
Dialogando com Arendt, o autor está a todo tempo indagando-se sobre o significado do mal, sem descurar da investigação sobre o que o torna possível e sobre como ele se manifesta nas ações humanas.
Penso ser decisiva na apropriação da obra arendtiana feita nesse livro a ênfase dada pelo autor ao papel do nós para a formação do eu.
Em diálogo crítico com Arendt, Valério Luiz Filho indica o quanto o dois-em-um, o diálogo sem som comigo mesmo que instaura uma pluralidade na própria subjetividade e é constituinte da personalidade moral, sempre implica uma representação das posições dos outros.
A hipótese de Valério Luiz é a de que a desumanização das vítimas, a fabricação de sua superfluidade, é decisiva para que os carrascos sejam capazes de suportar exterminá-los sem destruírem a si mesmos.
Desse modo o autor indica que, assim como nosso sentido de realidade, a confirmação de nossa identidade é devedora de uma relação permanente com os outros representada no diálogo do indivíduo consigo mesmo, a ponto de o dois do dois-em-um ser identificado aqui com os nossos semelhantes.
Arendt não pensa a moral como uma questão de alteridade, mas como respeito à própria dignidade e como orgulho por isto. Mas penso que o autor está correto em extrapolar Arendt a partir dela mesma ao conectar a pluralidade constituinte da pessoa à pluralidade da teia de relações humanas que estabelece o espaço-entre intersubjetivo que é o mundo dos assuntos humanos.
Arendt julgou que foi a falta de cultivo da imaginação por Eichmann que facilitou a realização por ele de tarefas que contribuíram decisivamente para o extermínio de milhões de pessoas. Foi essa falta de imaginação ou incapacidade de pensar do ponto de vista do outro que permitiu que ele assumisse sem questionar a presunção de superfluidade das vítimas do extermínio sem sequer considerar sua humanidade.
A hipótese de Valério Luiz de Oliveira Filho, que dá muito o que pensar, é a de que a desumanização das vítimas, a fabricação de sua superfluidade, é decisiva para que os carrascos sejam capazes de suportar exterminá-los sem destruírem a si mesmos. Para Arendt, isto valeria para Eichmann e muitos como ele, mas ela admitia que muitas pessoas podem refletidamente desejar o mal a outrem, mesmo o extremo da aniquilação, de maneira refletida e sem deixar de reconhecer a humanidade do aniquilado.
Por fim, considero que o autor deste livro é notavelmente bem-sucedido em seu uso da noção arendtiana de pluralidade para pensar as questões morais, interpretando a teia de relações que se constitui a partir das relações humanas como uma teia de perspectivas, como uma trama de singularidades na qual nos reconhecemos reciprocamente enquanto humanos.
O mal como transgressão e ofensa é uma ocorrência ordinária entre seres plurais, únicos e espontâneos, que vivem em comunidade, mas o mal atinge o paroxismo da violação quando ações aniquiladoras representam a destruição da possibilidade de nos reconhecermos como dignos em nossa singularidade, em vez de superfluamente indistintos.
Como bem ponderou Arendt, quando um grupo humano específico é exterminado, com sua visão singular do mundo e principalmente quando devido a ela, parte de nosso comum é destruído, pois sua pluralidade é empobrecida, uma vez que um aspecto único a partir do qual ele se constituía se perde: “consequentemente, a aniquilação não apenas representa o fim de um mundo, mas leva com ela aquele que aniquila”.
Analogamente, como bem pondera Valério Luiz de Oliveira Filho, quando deixamos de representar em nossa personalidade as perspectivas dos demais, empobrecemos o diálogo que estabelecemos com nós mesmos e escancaramos a possibilidade de violações variegadas a nossos semelhantes.
Adriano Correia é professor de Filosofia na Universidade Federal de Goiás (UFG). O texto, prefácio do livro de Valério Luiz Silva, é publicado com autorização do autor.
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