Goiânia como destino: o novo mapa da migração cubana no Brasil
Nos últimos anos, uma nova rota migratória vem se consolidando no Brasil – e passa longe dos tradicionais destinos como São Paulo e Rio de Janeiro. No coração do país, Goiás, especialmente Goiânia, tem se tornado um dos principais pontos de chegada de imigrantes cubanos em busca de trabalho, estabilidade e dignidade.
Impulsionados por uma crise econômica prolongada, escassez de alimentos e medicamentos, além de restrições políticas, milhares de cubanos têm deixado a ilha. Ao chegar ao Brasil, encontram um cenário paradoxal: mais oportunidades e liberdade, mas também dificuldades estruturais que desafiam sua integração.
O Brasil é um dos principais destinos da América Latina. Dados recentes do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) indicam que o país já ultrapassa 1,9 milhão de imigrantes registrados, refletindo uma nova configuração das rotas globais e regionais. Dentro desse cenário, Goiás acompanha essa tendência de crescimento e se destaca como um dos estados em expansão migratória fora do eixo tradicional. De acordo com os dados mais atualizados do sistema migratório brasileiro, o estado já registra cerca de 26,9 mil imigrantes, com forte concentração na região metropolitana de Goiânia.
Dentro desse cenário, os cubanos vêm ganhando protagonismo no fluxo migratório brasileiro. Dados recentes do OBMigra mostram que eles estão entre as principais nacionalidades em pedidos de refúgio, figurando como a segunda maior nacionalidade — e, em alguns momentos, a principal — entre os solicitantes no Brasil.
É nesse contexto que histórias individuais, como as de Lázaro Felipe Armenteros Cabrera e Orlandis Toirac Tamayo, se cruzam com análises mais amplas de especialistas — revelando um retrato complexo da migração contemporânea.
Um novo fluxo migratório no Centro-Oeste
Diferente do que ocorreu em outras ondas migratórias no país, Goiás surge hoje como um polo de atração. A explicação passa por fatores econômicos, geográficos e sociais.
Segundo o filósofo e especialista em políticas migratórias Paulo Illes, o estado se insere em uma nova lógica de circulação de pessoas: “Estados como Goiás, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina, ligados ao agronegócio e à expansão econômica, passaram a atrair muito a migração. Há demanda por mão de obra, principalmente na construção civil, comércio e indústria.”
Além disso, a localização estratégica tem peso decisivo.
Brasília se tornou um grande ponto de chegada. Hoje há voos diretos de várias capitais. Goiás, por estar próximo, acaba sendo uma extensão natural desse fluxo.
Outro elemento fundamental é o papel das redes migratórias — um padrão comum em deslocamentos internacionais: “A diáspora se forma a partir de conexões. Uma pessoa chega, se estabelece e chama outras. Isso explica por que determinados grupos se concentram em regiões específicas.”
Embora a presença de imigrantes não seja novidade em Goiás — com bolivianos, haitianos e paraguaios já inseridos em setores produtivos — foi a chegada recente de venezuelanos e cubanos que ampliou a visibilidade do tema.
Segundo Illes, essa mudança expôs fragilidades:
Apesar de algumas iniciativas, Goiás ainda tem políticas migratórias incipientes. Falta estrutura, orientação e acesso facilitado à documentação.
Na prática, isso significa que muitos imigrantes chegam sem apoio institucional adequado, dependendo principalmente de redes informais — como igrejas e organizações da sociedade civil.
Documentação: o primeiro grande obstáculo
Um dos principais desafios enfrentados por cubanos no Brasil é a regularização migratória.
Diferentemente de outras nacionalidades, eles não contam com um mecanismo específico de acolhimento:
“Não há visto humanitário para cubanos. Para isso, o governo brasileiro precisaria reconhecer oficialmente uma grave violação de direitos humanos em Cuba, o que envolve questões políticas.”
Sem essa proteção, muitos entram como turistas ou de forma irregular e precisam recorrer ao pedido de refúgio — um processo burocrático e demorado.
“Sem documento, a pessoa praticamente não existe. A documentação é o primeiro passo para acessar trabalho, direitos e dignidade”, explica Illes.
Outro ponto crítico é a inserção no mercado de trabalho.
Apesar da alta qualificação de muitos imigrantes — especialmente cubanos, conhecidos pela formação em áreas como saúde — a realidade encontrada no Brasil costuma ser outra.
“Há uma dificuldade enorme na validação de diplomas. Isso empurra essas pessoas para a informalidade ou para empregos abaixo da sua qualificação”, complementa Paulo Illes.
Esse fenômeno, conhecido como “desqualificação profissional”, é recorrente e aparece de forma marcante nas histórias que compõem esta reportagem.
Goiânia: oportunidades e lacunas
A capital goiana reúne características que atraem imigrantes:
- crescimento econômico
- oferta de empregos
- custo de vida relativamente mais baixo que grandes capitais
- sensação de segurança
Mas também apresenta limitações estruturais.
“O grande desafio não é criar planos, mas fazer com que eles cheguem na ponta. É garantir acesso real à documentação, trabalho e integração social.”
Segundo o especialista, uma política migratória eficiente precisa atuar em três frentes principais:
- Documentação acessível
- Emprego digno e formalização
- Integração social e cultural (incluindo ensino de português)
Rostos da migração: quem são os cubanos em Goiânia
Por trás dos dados e análises, estão histórias reais — de perdas, recomeços e adaptação.
Entre elas, a de Orlandis Toirac Tamayo, que chegou ao Brasil com a família em busca de melhores condições de vida e hoje trabalha na limpeza urbana, também no LimpaGyn.
E a de Lázaro Felipe Armenteros Cabrera, que deixou Cuba após anos atuando na área da saúde e hoje reconstrói sua trajetória profissional em Goiânia, conciliando diferentes trabalhos e planejando validar seu diploma.
Ambos fazem parte de uma nova geração de imigrantes que encontram no Centro-Oeste brasileiro não apenas um destino, mas uma oportunidade de reconstrução.
Para Paulo Illes, entender esse fenômeno exige ir além de simplificações:
“Se os países de origem oferecessem condições dignas, muitas dessas pessoas não migrariam. A migração, nesses casos, é uma necessidade — não uma escolha.”
E é justamente essa necessidade que conecta histórias individuais a processos globais.
Entre perdas e recomeços: as histórias de cubanos que reconstruíram a vida em Goiânia
A decisão de deixar Cuba raramente é simples. Para muitos, significa abrir mão de tudo o que foi construído ao longo de uma vida — casa, bens, profissão e, muitas vezes, parte da própria família.
Mas, diante da escassez e da falta de perspectivas, partir se torna inevitável.
“Para sair, tem que vender tudo”
Foi assim com Orlandis Toirac Tamayo, que hoje vive em Goiânia com a esposa e os três filhos.
A mudança exigiu um alto custo — não apenas financeiro, mas emocional.
“Lá em Cuba, para sair do país, é preciso vender tudo: casa, carro, tudo o que você conquistou na vida. Caso contrário, não há dinheiro suficiente para trazer toda a família.”
Ao contrário de muitos imigrantes, ele conseguiu trazer todos os filhos e a esposa. Ainda assim, parte da família ficou para trás.
“Sinto falta da família que ficou. Minha avó e meu irmão ainda estão lá”.
A escolha, no entanto, não deixou dúvidas: “Valeu a pena.”
Antes de migrar, Orlandis tinha renda considerada acima da média em Cuba. Ainda assim, não conseguia garantir o básico.
Eu ganhava relativamente bem, mas não era suficiente. Uma garrafa de óleo custava cerca de 600 pesos, fraldas chegavam a 3.500. O dinheiro acabava rápido.
A realidade descrita por ele evidencia um dos principais fatores da migração cubana atual: o descompasso entre salário e custo de vida.
“Aqui eu não me preocupo com o básico”
No Brasil, a mudança é sentida no cotidiano.
“Aqui é diferente. Há liberdade de expressão, oportunidades de trabalho e condições para sustentar a família.”
Hoje, ele trabalha na limpeza urbana do Consórcio LimpaGyn e destaca a estabilidade conquistada: “Eu não tenho mais preocupação com falta de alimentos ou itens básicos.”
A comparação econômica impressiona: “R$100 aqui equivalem a cerca de R$10.000 lá. Isso é mais do que o salário de um médico em Cuba.”
A adaptação não se limita ao trabalho. Os filhos também passaram a reconstruir suas rotinas no Brasil. “Tenho um filho de 18 anos que estuda no Senai, e os mais novos estão na creche. Eles estão gostando muito”, destaca Orlandis.
A educação, nesse contexto, aparece como símbolo de continuidade e esperança.
A escolha por Goiás não foi aleatória. “Escolhi aqui porque é um lugar seguro, com oportunidades de trabalho. Uma amiga cubana que já estava aqui me indicou.”
A percepção de acolhimento também marca sua experiência:
Os brasileiros são muito receptivos e prestativos.
De médico a operador: a trajetória de Lázaro
Se a história de Orlandis mostra a estabilidade possível, a de Lázaro Felipe Armenteros Cabrera revela o outro lado da migração: a necessidade de recomeçar do zero — mesmo com alta qualificação.
Formado na área da saúde em Cuba, ele deixou o país após anos de trabalho como médico sob pressão e limitações.
“Eu trabalhava muito, tinha plantões obrigatórios, e não podia escolher. Era muito trabalho para pouco benefício.”
Mais do que a carga horária, o que o incomodava era o sistema.
Eu tinha que colocar 30, 40 pacientes em relatórios, mesmo atendendo só 10. Era para cumprir metas. Não importava a qualidade.
A decisão de sair também passou por questões políticas e éticas. “Eu tinha que falar muita mentira, e não gostei disso. Prefiro ser sincero.”
Como ocupava um cargo de gestão em uma unidade de saúde, frequentemente era obrigado a mentir em relatórios para manter o emprego.
Segundo ele, qualquer manifestação pode gerar consequências: “Se você fala, o governo vem atrás de você. Já estão na sua casa.”
Ao chegar ao Brasil, a realidade foi dura.
Sem dinheiro e sem emprego, enfrentou uma fase crítica.
“A gente começou comendo macarrão instântaneo e bebendo suco de 99 centavos. A refeição era a mesma todos os dias. Era o que dava.”
O primeiro trabalho veio poucos dias depois: “Comecei em um lava-jato. Depois fui para uma panificadora.”
Recomeçar do zero
Mesmo com formação superior, como não conseguiu validar o diploma no Brasil, precisou aceitar trabalhos operacionais:
- lava-jato
- panificadora
- reposição
- coleta
Até conseguir uma oportunidade melhor: “Comecei como coletor. Depois surgiu uma vaga e fui para a torre de controle.”
Hoje, atua como operador de monitoramento e também trabalha como motorista de aplicativo.
A trajetória de Lázaro expõe um problema estrutural: a dificuldade de validar diplomas no Brasil.
Enquanto isso, profissionais altamente qualificados atuam em funções básicas. “Eu estudo para tentar validar meu diploma, mas é difícil.”
A barreira do idioma
Outro desafio foi a comunicação. Apesar do espanhol ser um idioma próximo ao português, em alguns momentos há certa dificuldade na comunicação. “Quando eu fico nervoso, falo mais rápido, misturo espanhol… e aí as pessoas não entendem”, pontua Lázaro.
Além da dificuldade linguística, ele também enfrentou situações de preconceito: “Algumas pessoas te tratam diferente só por você não falar bem o português.”
Apesar dos obstáculos, ele reconhece avanços: “Hoje estou muito agradecido. Tenho minha moto, trabalho, consigo viver.”
E destaca a autonomia conquistada: “Aqui, se eu quiser trabalhar, trabalho. Se não, eu descanso. Lá não era assim.”
Saúde: dois sistemas, duas realidades
Como profissional da saúde, Lázaro faz uma comparação sensível entre os dois países.
No Brasil, ele utiliza o SUS sem distinção: “Não tem diferença. Você é atendido igual.”
Mas aponta uma diferença importante: “Aqui é mais frio. Lá, mesmo sem remédio, você escuta o paciente. Isso já ajuda.” Segundo ele, o atendimento médico em Cuba é mais sensível e humanizado do que no Brasil.
A integração acontece aos poucos.
Ele já incorporou elementos da cultura local: “Gosto de sertanejo, de pamonha…”
“Mas o pequi não desce”, brinca.
E mantém aspectos da cultura cubana, especialmente na forma de se relacionar e viver.
Voltar não é opção — por enquanto
Apesar da saudade, o retorno não está nos planos.
Se Cuba estivesse como o Brasil, ninguém teria saído.
A frase resume o sentimento de muitos imigrantes.
LimpaGyn como oportunidade para muitos imigrantes
O Consórcio LimpaGyn tem se destacado como um exemplo prático de inclusão no mercado de trabalho em Goiânia. Atualmente, a empresa conta com 48 trabalhadores estrangeiros, a maioria cubanos, mas também com a presença de venezuelanos, refletindo diretamente o novo fluxo migratório que chega ao estado.
O tipo de atividade — ligada à limpeza urbana — acaba sendo uma porta de entrada importante para esses imigrantes, já que se trata de um trabalho operacional, que não exige alta qualificação formal nem domínio avançado do português. Isso facilita a inserção imediata no mercado, garantindo renda e uma primeira oportunidade de estabilidade para quem chega ao país em situação de vulnerabilidade.
Outro ponto relevante é o incentivo à educação: a empresa estimula seus colaboradores a retomarem ou concluírem os estudos, criando condições para que esses trabalhadores — brasileiros ou estrangeiros — possam crescer profissionalmente ao longo do tempo.
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