Major Vitor Hugo: “Caiado é um bom nome. Se Flávio não estivesse na disputa, ou se Bolsonaro o tivesse escolhido, certamente teria um crescimento mais rápido”
Vitor Hugo de Araújo Almeida, mais conhecido por Major Vitor Hugo, se tornou um dos nomes mais expressivos da direita em Goiás. Nascido em Salvador (BA), ele se formou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), sendo o primeiro colocado em sua turma. Além disso, foi major de Infantaria e Forças Especiais, e se formou como advogado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na política, Major Vitor Hugo foi eleito em 2018 pelo PSL para deputado federal com 31.190 votos. Na Câmara dos Deputados, ele atuou como líder do governo do então presidente Jair Bolsonaro. Com isso, conseguiu articular e viabilizar a aprovação de diversos projetos na Casa, como o Novo Marco das Licitações, o Novo Marco do Câmbio, das Ferrovias, o Novo Marco da Cabotagem, o Auxílio Emergencial, o Pronamp, entre outros projetos.
Em 2022, ele é candidato do PL para o governo de Goiás, onde recebeu mais de 516 579 votos, ficando em terceiro lugar no pleito. O resultado, segundo ele, fez com que crescesse politicamente. Em 2024, ele atende a um pedido de Jair Bolsonaro e sair como vereador por Goiânia pela legenda conservadora, sendo o vereador mais votado daquele ano, na preferência de mais de 15.664 eleitores. Com o resultado, mais três nomes do PL foram eleitos: Oséias Varão, Willian Velozo e Coronel Urzeda.
Nesta entrevista ao Jornal Opção, Vitor Hugo comenta sobre o cenário eleitoral em 2026, onde se apresenta como pré-candidato a deputado federal. Ele fala sobre o sentimento de alívio com a prisão domiciliar de Bolsonaro, das movimentações internas do PL, sobre as articulações do presidente do partido e pré-candidato ao governo de Goiás pela sigla, Wilder Morais, que resultou na ida de Ana Paula Rezende para o partido, mas que ainda são vistas como tímidas diante do cargo que pretende pleitear. Vitor Hugo ainda destaca sobre a gestão de Sandro Mabel em Goiânia e aponta que pode ir para oposição do prefeito, caso os vetos ao Projeto Escudo Feminino – que aborda uma série de ações para proteção da mulher – não sejam derrubados.
João Paulo Alexandre – Como o PL recebeu a notícia da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, em conceder a prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro? O senhor pretende ter um contato com ele antes do período eleitoral?
Ainda no ano passado, eu entrei com o pedido formal para poder visitá-lo, mas ainda não tive a resposta formal do relator do processo. Mas a decisão do ministro de conceder essa prisão domiciliar fez com que houvesse um congelamento das visitas, porque só familiares mais próximos vão poder visitar o presidente durante esses 90 dias, além de médicos e advogados. Então, visitas políticas foram travadas dentro desses três meses. Vamos esperar passar esse momento para continuar a tentativa de encontrar com ele.
Sobre a notícia em si: eu a recebi, e senti isso entre alguns membros do PL, com um certo alívio. Na verdade, a nossa visão é que esse processo é inconstitucional, ilegal e que se baseia num fato em que não existiu uma tentativa de golpe. Como é que pode configurar uma tentativa de golpe em um domingo, com pessoas sem uso de armas, sem apoio de lideranças externas, sem um líder — pois Bolsonaro estava no exterior —, sem apoio de governadores, senadores, deputados, imprensa, tanques e sem apoio militar consistente? Não tem como caracterizar isso como tentativa de golpe. Colocar Bolsonaro como líder disso é uma narrativa criada e que foi desmontada pelo voto do ministro Luiz Fux.
É claro que nossa vontade seria que Bolsonaro fosse livre por completo, que a anistia tivesse sido aprovada, que foi um projeto, enquanto deputado federal, que eu apresentei e previa que fosse ampla, geral e irrestrita. Mas, para o cenário que estamos vivendo agora, o Bolsonaro voltar para casa é um alento, um alívio. Porém, como o Flávio Bolsonaro caracterizou, é uma decisão exótica.
Eu sou advogado e não tenho conhecimento de ver uma concessão de uma prisão domiciliar humanitária temporária. E me questiono sobre o fato de, se o Supremo Tribunal Federal não estivesse imerso nesse caso do Banco Master, essa decisão teria sido tomada nesse momento. Se isso não foi algo para tentar amenizar a situação do STF diante da população, porque até quem não apoia o presidente Bolsonaro, certamente, fica estarrecido ao ver um senhor de 71 anos, com uma série de comorbidades, devido à facada, com mais de dez cirurgias. Acho que o contexto como um todo é um misto de alívio com um sentimento ainda grande de injustiça.
João Paulo Alexandre – Nesse episódio do 8 de janeiro, a quebradeira acabou se tornando um fator negativo para a direita?
Uma coisa é pegar mal, e outra é você caracterizar isso como um Golpe de Estado. Há uma distância imensa, até porque a esquerda, ao longo da sua história brasileira recente, em 2017 e pouco antes, quando Michel Temer assumiu a Presidência em função do impeachment constitucional que foi feito contra a Dilma Rousseff, invadiu, por diversas vezes, a Esplanada e quebrou tudo, como na Câmara dos Deputados, diversos ministérios, e nunca, naquele momento, houve uma caracterização como Golpe de Estado ou atentado violento contra o Estado Democrático de Direito. Foi um vandalismo e foi tratado como isso.
É lógico que o que foi feito no 8 de janeiro foi errado, mas suspeitamos, inclusive, que havia infiltrados justamente para haver essa caracterização. Mas, independentemente de quem invadiu, quebrou, tem que ser punido, mas na medida do que fizeram. No Brasil, hoje, na nossa República, não é um grupo de mil pessoas quebrando pintura, estátua e vidro que vai conseguir abolir. A democracia não acaba porque estão fazendo uma baderna, assim como não acabou quando a esquerda fez. Foi errada a quebradeira, mas está muito longe de ser um golpe de Estado.
João Paulo Alexandre – Mesmo indo para a domiciliar, Jair Bolsonaro segue preso e inelegível. Qual é o peso dele nas eleições de 2026?
Total. Veja bem: Bolsonaro, dentro do cárcere, da prisão política em que ele está, aponta o filho dele — não na voz nem na imagem dele —, aponta, de maneira indireta, o Flávio, dizendo que ele era o candidato. Em seguida, ele assina uma carta. E o Flávio Bolsonaro sai de uma situação de descrença, porque grande parte da imprensa, e até mesmo parte do eleitorado conservador, se questionou se ele iria decolar, se essa opção do Bolsonaro foi correta. Meses depois, Flávio está superando o Lula até mesmo no segundo turno, conforme uma pesquisa recente publicada no UOL. Flávio está com dois pontos à frente de Lula.
Isso foi possível porque é o Jair Bolsonaro apoiando. O Flávio tem seu mérito, principalmente por conseguir sinalizar e mostrar aptidão para atingir públicos-alvo que, antes, fossem refratários ao bolsonarismo em geral. Flávio faz questão de dizer que ele é “o Bolsonaro que tomou vacina”.
Ele tem tido uma relação com a imprensa menos conflituosa. Ele está tentando chegar a públicos, construir pontes, inclusive com a política, o que não foi possível durante o governo de Jair Bolsonaro por uma série de fatores. Mas tudo isso só foi possível porque Bolsonaro o indicou. Com isso, ele vai ter, na eleição para presidente, Senado, Câmara dos Deputados e governadores, uma expressão muito grande, não tenho dúvidas.
João Paulo Alexandre – Fale mais sobre quais são os pontos de vantagem que Flávio Bolsonaro tem em relação ao pai. Recentemente, ele chegou a publicar um post usando linguagem neutra, o que chamou muita atenção. É, de certa forma, uma tentativa de se aproximar de um novo eleitorado, principalmente daquele que não é tão bolsonarista e nem tão lulista, mas que pode levar um candidato à vitória nessas eleições?
Eu vejo que o Flávio acerta quando ele sinaliza para eleitores de centro, e não estou falando de Centrão, mas daqueles que não se identificam com nenhuma das ideologias que polarizam hoje. São pessoas que, por exemplo, estão mais preocupadas com o destino do país de forma pragmática: se eu votar nessa pessoa, o meu salário e o poder de compra vão ser maiores? Eu vou ter mais saúde e educação para mim e para os meus filhos? Eu vou ter mais emprego no país? A inflação e os juros vão cair? As pessoas estão sendo pragmáticas. São elas que, mesmo com uma parcela votando em um lado ou no outro, vão decidir realmente as eleições.
Flávio Bolsonaro tem sido muito habilidoso na conquista dessas pessoas e, por isso, ele está crescendo muito rapidamente. E eu tenho certeza de que isso também foi uma orientação repassada a ele pelo pai. Jair Bolsonaro sabia dessa importância. Flávio, com o jeito dele, que realmente é menos intempestivo, menos impetuoso, nesse sentido de tomar decisões no calor do momento, tem adotado uma postura que eu considero muito positiva e tenho ouvido muito isso por onde eu passo.
De um lado, ele consegue trazer os valores, princípios e as crenças do bolsonarismo, da direita conservadora e liberal na economia, para manter o capital político do pai e da direita; de outro lado, ele consegue sinalizar para essas pessoas que, às vezes, não têm um posicionamento ideológico definido, ou mesmo para pessoas que são de esquerda, mas são anti-Lula.
João Paulo Alexandre – Você acredita que o eleitor tem deixado de votar mais com a emoção e priorizado a razão em busca de resultados mais concretos? E sobre esse termo “terceira via”, você acredita que ele cabe dentro da disputa eleitoral deste ano?
Eu não consigo avaliar se esse grupo de pessoas mais pragmáticas se configura como maioria. Eu acho que não. Eu lembro que já conversava sobre isso com Bolsonaro há quase dez anos, porque eu assistia a vídeos dele e queria entender melhor a sua cabeça, pois, naquele momento, era uma incógnita para mim e para muitos brasileiros. Naquela época, ele já demonstrava que queria ser presidente da República, e eu tive uma boa impressão dele. Estudei por mais de oito horas os seus vídeos, fiz uma apresentação, consegui uma agenda e fui mostrar a ele. No espectro político, eu já trazia — e acho que isso se mantém — que há em torno de 25% a 30% do eleitorado de direita, a mesma quantidade de eleitores de esquerda e entre 40% a 50% de eleitorado formado por essas pessoas pragmáticas. Não vejo que esse grupo supera as duas ideologias somadas, mas são eleitores importantíssimos, porque ninguém ganha eleição para presidente com 30% dos votos. Quem conquistá-los vai vencer, não tenho dúvida. Mas eu também vejo que é um público crescente. Até mesmo quem está no campo ideológico vem dizendo que, apesar dos valores, quer ver algo se concretizando.
Sobre a terceira via: não vejo possibilidade de isso acontecer em um país polarizado como está agora. Se Ronaldo Caiado (PSD) for candidato a presidente, ele é mais à direita do que à esquerda. Está em um campo de centro-direita. Ele tem qualidade, legitimidade, experiência e autoridade moral para se candidatar, além, claro, do direito para isso. Mas acho que a polarização tende a dificultar muito o crescimento dele, como a gente vê nas pesquisas. Não porque seja um candidato ruim, mas porque existe uma polarização clara, que tende a esmagar, diminuir qualquer outra possibilidade. Por isso, não acredito que essa “terceira via” — ou até mesmo “a melhor via”, como o Gilberto Kassab vem colocando — tenha condição de crescer, seja com qualquer nome que entre na disputa.
João Paulo Alexandre – Como você enxerga a possibilidade de haver dois candidatos da direita na disputa presidencial? De certo modo, isso mais ajuda ou prejudica o projeto de Lula da Silva (PT) para a reeleição?
O meu pré-candidato à Presidência da República é o Flávio Bolsonaro (PL). Por essa perspectiva, eu gostaria muito que todos da direita e centro-direita se unissem em torno dele de imediato. Seria muito melhor que a gente abordasse essa disputa, que será essa eleição presidencial, com o máximo de união e esforço já no primeiro turno. Isso é o que eu defendo e gostaria que acontecesse.
Mas, por outro lado, eu reconheço que nós temos — e isso é positivo — vários nomes que podemos apresentar, diferentemente da esquerda. Se tirar o Lula, quem seria o candidato deles hoje? Eu consigo imaginar que o Flávio Bolsonaro e o Ronaldo Caiado vão focar seus esforços políticos no Lula, até para diferenciar a esquerda da direita. Eu torço para que não haja conflito entre eles no primeiro turno, o que poderia desgastar ambos que estão no campo da direita. Tomara que isso não aconteça e que o nosso foco seja efetivamente o PT, que é o nosso adversário político em comum.
Se for confirmada, a candidatura de Caiado é legítima, pois ele tem experiência, tem uma aprovação muito grande em Goiás e isso está refletindo em nível nacional, independentemente de termos visões diferentes sobre a sucessão no Estado.
Meu pré-candidato para o governo é Wilder Morais (PL); ele tem o candidato dele, que é o Daniel Vilela (MDB), mas reconheço que, em nível nacional, ele é um bom nome. Se não houvesse o Flávio na disputa, ou se Bolsonaro o tivesse escolhido como sucessor, certamente teria um crescimento mais rápido.
João Paulo Alexandre – Trazendo a conversa para uma discussão regional, no início, houve conversas para uma possível aliança entre o PL e a base governista. Isso deixou o partido dividido: parte defendia a aliança e parte queria uma chapa pura, defendendo Wilder Morais como pré-candidato ao governo. Como estão os ânimos hoje dentro do partido? Essa “divisão” está apaziguada?
É natural que os momentos de pré-definição de um partido tão grande quanto o PL sejam, em alguma medida, turbulentos, porque a gente vive em uma democracia, em que as pessoas podem pensar diferente — e que bom que isso aconteça. Havia vertentes discrepantes, que acreditavam em linhas de ação diversas: alguns queriam que houvesse a aliança, outros não. E a visão que se consolidou, pelo apoio do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, pela fala de Eduardo Bolsonaro em uma live e, depois, pela condescendência demonstrada em um evento em Brasília, em que Valdemar anunciou Wilder Morais como pré-candidato ao Governo de Goiás, com a presença de Flávio Bolsonaro, que aplaudiu.
Há gestos sendo feitos em nível nacional também para avalizar a candidatura do Wilder. Depois que houve essa manifestação, agora estamos caminhando para o arrefecimento, a diminuição da temperatura dentro do partido. É natural que haja um processo, não é um ato isolado, de aproximação. A janela partidária vai se encerrar em breve, depois teremos um prazo antes das convenções, e tudo vai se consolidar nessas convenções. Eu acho que estamos caminhando para o apaziguamento.
Fabricio Vera – Durante uma sessão recente na Câmara dos Vereadores, o senhor afirmou que estava avaliando ir para a oposição do prefeito Sandro Mabel (UB), após o veto ao projeto de lei sobre o Programa Escudo Feminino. Como você avalia esse veto e se realmente o senhor irá para a oposição do prefeito?
Eu fiquei chocado com esse veto por vários motivos. Primeiro, pelo mérito em si do projeto, que é muito importante para Goiânia, no momento em que a gente vive uma epidemia de violência contra a mulher. No Brasil, quatro mulheres são vítimas de feminicídio por dia, quase 90 mil estupros anuais, sendo que há uma subnotificação que pode elevar esse número para 300 mil casos, e o projeto de lei foi extremamente pensado, com muito cuidado e com muita articulação.
Nós fomos conversar com a vice-prefeita, Coronel Cláudia, que é da Polícia Militar e que trabalhou no Batalhão Maria da Penha, e se mostrou favorável ao projeto. Conversamos com a secretária de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, Erizânia Freitas, que também se posicionou a favor; com a secretária de Governo, Sabrina Garcez; com a Procuradoria-Geral do Município, que, ao longo do processo, emitiu três pareceres diferentes, cada vez mais restritivos; e conversei com o próprio Sandro Mabel, que afirmou para mim que não iria vetar a maior parte do projeto, mas que, naquele momento, vetaria a questão de acesso à arma de fogo financiado pelo município.
Mas o projeto era muito maior do que isso: tratava sobre defesa pessoal, de taser, spray de pimenta e outras medidas. No final, ele vetou tudo, contrariando o que havia me dito em reunião.
Eu não tenho cargos na Prefeitura, não me interessa tê-los e só procuro o prefeito para tratar de assuntos referentes aos meus projetos ou a pedidos diversos da população, como iluminação, esgoto, creche e faixa de pedestre. Segundo: houve uma onda de vetos a projetos dos vereadores, tanto de quem não é da base quanto de quem é. No mês da mulher, ele vetar um programa que visa salvar vidas de mulheres. Eu sou a favor do armamento da população, mas o projeto não trata sobre isso.
Então, a forma como foi feita a articulação — de falar para mim uma coisa e fazer outra —, somada a pesquisas que mostram que Mabel não está sendo bem avaliado pela população, pesa na avaliação. E não foi só o meu projeto: ele também vetou um projeto da Aava Santiago (PSB), que está em um espectro político oposto ao meu, mas que apresentou uma proposta relevante sobre reconstrução dentária de mulheres agredidas.
Se a gente conseguir derrubar o veto, pelo menos ao status do que foi conversado no início, eu tendo a não ir para a oposição. Mas, se não conseguirmos, a chance de eu ir é grande. Hoje sou independente, não sou da base, mas está me parecendo muito ruim me aliar a um governo mal avaliado e que não respeita o poder legislativo municipal.
João Paulo Alexandre – Outros vereadores do PL entrevistados pelo Jornal Opção destacaram que o primeiro ano de gestão sempre é mais complexo e avaliaram que Sandro Mabel é um bom gestor e pode reverter esse cenário nos próximos. Como você tem avaliado a gestão dele?
Goiânia é uma cidade complexa. É a 10ª maior cidade do país. É claro que é difícil e complexo gerir Goiânia. Mas, se a pessoa se apresentou para o desafio e foi eleita, tem que estar à altura para resolver os problemas que vai encontrar. O primeiro ano realmente é difícil, é um período de organização, em que as pessoas têm uma tolerância maior.
Mas, quando olhamos a postura do Márcio Corrêa (PL), em Anápolis, que está com mais de 90% de aprovação, nota-se que a postura dele é de proximidade e defesa da população. Ele se coloca como protetor, como alguém que está ali para servir.
Com o Mabel, eu vejo que ele age como se fosse o chefe da cidade, quer impor a vontade dele e trata Goiânia como se fosse uma empresa dele, em que manda e desmanda, vendo o cidadão como um subordinado a ele, quando, na verdade, ele é o primeiro subordinado de todos nós. Eu sinto que ele não compreende isso. Ele é mais presente que o Rogério Cruz? Sim. Demonstra conhecimento e se debruça sobre os problemas da cidade, mas, na minha visão, não está conseguindo apresentar os resultados que a população esperava.
João Paulo Alexandre – Major, trazendo a conversa agora para um âmbito estadual: Wilder Morais está como pré-candidato ao Governo de Goiás pelo PL, mas ele não é visto andando pelo estado com tanta frequência, até mesmo para se aproximar do eleitor. Por que isso ainda não está deslanchando? O que ainda falta para ele começar a se movimentar para ter mais destaque no pleito deste ano?
Cada um tem a sua estratégia, o seu momento, o seu jeito.
O Wilder Morais é uma pessoa muito mais discreta e mais estratégica também. Ele surpreendeu todo mundo quando conseguiu o apoio e trouxe para o PL a Ana Paula Rezende, filha do Iris Rezende, e a anunciou como pré-candidata a vice-governadora. Então, o estilo dele é mais discreto.
Ao passar o fechamento da janela partidária, eu tenho certeza absoluta de que ele vai começar a se apresentar mais, a discutir os temas regionais, inclusive a criticar as ações do governo que ele pretende derrotar nas urnas. O candidato apoiado pelo governo vai vir com toda essa carga de aprovação, que tem quase 90% de aprovação estadual, e qualquer pré-candidato que queira desafiá-lo precisa demonstrar que esse sentimento de continuidade está equivocado, que há pontos que precisam ser questionados. Eu tenho certeza de que o Wilder Morais ainda vai fazer isso.
Fabrício Vera – Diversos prefeitos do PL e até mesmo deputados federais reclamaram de uma falta de espaço dentro do partido. Alguns disseram que nunca foram convidados para uma reunião dentro da sigla. Como está essa situação hoje? O PL conseguiu reverter essa imagem negativa de alguns dos seus filiados?
Eu não faço mais parte da direção estadual do PL. Eu fui presidente do partido no ano de 2022, quando fui candidato ao governo. Na ocasião, conseguimos eleger um senador, quatro deputados federais e três estaduais. Eu recebi mais de 500 mil votos no Estado, o que me ajudou a crescer muito politicamente, apesar da derrota eleitoral. Mas, hoje, não sou dirigente partidário e, sobre como funciona esse relacionamento entre o Wilder e os parlamentares nos diversos níveis e com prefeitos, eu não acompanhei de perto. Não posso rebater nem criticar as falas de quem esteve aqui falando de outra forma.
Mas eu vejo que houve um esforço muito grande do Wilder Morais. Nas campanhas municipais, ele esteve em muitos municípios. O partido teve quase 100 candidaturas a prefeito, contou com vários vice-prefeitos e elegeu um grande número de vereadores em Goiás. Eu acho que, com o passar do tempo, vai haver uma aproximação ainda maior na coordenação das pré-campanhas. A gente entende que a máquina governamental é bem forte e atuou para tirar prefeitos do PL e atraí-los para a base governista. E, agora, nós vamos fazer o movimento reverso, de trazer o máximo possível de mandatários para apoiar o nosso projeto, que eu tenho visto crescer. É visível: a gente sai às ruas, conversa com as pessoas, e muita gente, na capital e no interior, parabeniza o PL por ter trazido a Ana Paula e percebe o crescimento do Wilder.
Ainda está muito cedo, pois não sabemos se Caiado, caso esteja em uma empreitada nacional, também estará no palanque local, o que fortaleceria muito o candidato dele. Nós temos que esperar as definições dos próximos dias, que devem ser bem impactantes para o Estado.
João Paulo Alexandre – O PL caminha para ter uma chapa pura. As eleições municipais mostraram que o bolsonarismo ainda é bem forte em Goiás, mas demonstraram que, sozinho, é um pouco mais difícil conseguir vencer as eleições. Prova disso é que, nas três maiores cidades do Estado, vocês tiveram candidatos bem posicionados e apenas em Anápolis o vencedor foi do PL. Nessas eleições, o PL não erra ao não buscar apoio de outras siglas?
Não estou participando das articulações, porque isso é atribuição do presidente estadual, que é o nosso pré-candidato ao governo de Goiás. Mas eu tenho certeza de que ele está conversando com outras siglas o máximo possível para atraí-las. Isso tem certa dificuldade porque a base do governo está estruturada e tem seus relacionamentos já construídos. É um desafio para nós, sendo liderados pelo Wilder, atrair novos partidos, aumentar o tempo de TV, o fundo partidário e eleitoral e os cabos eleitorais naturais, que são os próprios candidatos das chapas para federal e estadual. É claro que nosso objetivo é ter outros partidos, mas, como eu não faço parte das articulações, não sei detalhes de quem já está e de quem ainda vai chegar.
Acho, ainda, que o Wilder está sendo estratégico ao esperar o momento certo para realizar esses anúncios, porque a pressão sobre os partidos e nomes aumenta ainda mais por parte do governo. Também não se sabe qual vai ser o impacto no momento em que Ronaldo Caiado deixar o cargo. Ele tem presença, liderança e uma atuação que agrega. A partir do momento em que ele sair, será que essa amálgama que mantém as pessoas unidas vai continuar? Quando o Wilder crescer nas pesquisas, isso não pode fazer com que os prefeitos queiram recalcular a rota?
Eu acho que nós temos muitos movimentos a serem feitos ao longo desses próximos meses. Pode ser que a base governista, que hoje conta com mais de 200 prefeitos, comece a se desgastar um pouco mais a partir do momento em que houver um crescimento natural do Wilder Morais.
Fabrício Vera – Você citou sobre a filiação de Ana Paula Rezende no PL e a inclusão dela na chapa. Como o nome dela soma ao projeto do partido?
Ela traz consigo o peso do legado de Iris Rezende, que foi um dos maiores — se não o maior — político goiano da história. Ele foi ministro da Agricultura, da Justiça, governador, deputado estadual, senador e prefeito de Goiânia por quatro vezes. É um político de quem as pessoas em Goiânia e em Goiás lembram muito da figura e gostavam bastante. Ele tinha uma capacidade de mobilização imensa. Quando fui deputado federal, eu acho que ele se identificou comigo. Me chamava para ir ao Paço para conversar e pedia auxílio para ajudar na aproximação de Goiânia com o governo federal.
Ele me chamava para os mutirões, e era algo impressionante. Era como o Bolsonaro em nível nacional: víamos pessoas em cima dele, abraçando-o, apaixonadas; e o Iris aqui em Goiânia. Vi gente entregando bilhetes para ele; ele colocava no bolso, abraçava aquela pessoa… Eu ficava impressionado.
Diante de todo esse contexto, eu vejo que foi uma tacada de mestre do Wilder trazer a Ana Paula, que representa tudo isso. Também foi um golpe político muito forte para o MDB e para o projeto governista, porque ela não só saiu, como expôs mágoas e reflexões sobre o abandono do legado do pai, o que certamente impacta. Por isso, a chegada dela foi muito positiva.
Há quem duvide de que ela terá impacto eleitoral, pelo fato de nunca ter sido testada nas urnas, mas ela só não foi porque ainda não quis, não teve oportunidade. Eu não tenho dúvida da força do Iris, traduzida agora por ela, que é herdeira desse legado.
João Paulo Alexandre – Mas você acredita que o legado de Iris seja refletido na filha e que se reverta em votos, tendo em vista que, apesar de parentes, são pessoas completamente diferentes e, na política, essa tática pode dar errado?
São possibilidades. Da mesma forma que vejo que o legado político de Bolsonaro para o Flávio é mais natural, porque são pai e filho, até fisicamente se parecem muito, embora tenham personalidades diferentes — o que, inclusive, está sendo visto como uma vantagem, já que a transferência tem sido imediata e isso aparece nas pesquisas.
No caso de Caiado e Daniel, eu vejo com mais dificuldade, tendo em vista que eles eram adversários há oito anos. Pode ser que exista uma resistência por parte de apoiadores do MDB no Estado, que sempre foram refratários ao grupo de Caiado. Essa transferência pode não ser tão clara e direta quanto se imagina. Na nossa avaliação de cenário, isso é uma possibilidade e um desafio.
Mas eu imagino que a transferência desse legado de Iris para a Ana Paula seja algo mais próximo do que ocorre entre Bolsonaro e Flávio, porque são pai e filha, carregam o mesmo sobrenome e ela também trabalhou com ele na administração. Eu consigo enxergar isso de uma maneira mais direta.
João Paulo Alexandre – Outro grande nome do PL atualmente é o de Gustavo Gayer, que se apresenta como pré-candidato ao Senado. Ele foi um dos nomes que defendia a aliança com a base caiadista para formar uma chapa única com apenas dois candidatos: ele e Gracinha Caiado. Como isso não aconteceu, há agora quatro nomes na base governista. Nos bastidores, fala-se que Gustavo Gayer não vai subir no palanque de Wilder Morais. O que o senhor sabe dessa história? Você vai subir no palanque junto com o atual pré-candidato do PL?
Eu vou subir no palanque com o Wilder. Agora, em relação ao Gayer, eu não posso responder a essa pergunta. Ela tem que ser feita diretamente a ele. Eu posso falar por mim: sempre disse que, tomada a decisão do partido, eu a aderiria de maneira completa.
E vou estar com Gustavo Gayer na empreitada dele. Tenho conversado muito com ele. Vai haver um movimento que ele está liderando, o “Acorda Goiás!”, que será realizado em 11 de abril e contará com a presença de Michelle Bolsonaro, Carlos Jordy, Bia Kicis, entre outros nomes. Eu vou estar ao lado dele nesse evento, mas essa questão — se ele vai estar no palanque ou se haverá uma maior aproximação — deve ser respondida por ele.
João Paulo Alexandre – Procede que o senhor tem um bom relacionamento com o vice-governador Daniel Vilela? Se sim, como teve início essa cordialidade?
O que aconteceu foi o seguinte: quando eu acreditei na campanha e fui apoiar o Márcio Corrêa para ser candidato a prefeito de Anápolis, havia a expectativa de que eu fosse o candidato lá, mas eu atendi a um pedido de Bolsonaro, que queria que eu fosse vereador por Goiânia. Como decidi não ser candidato a prefeito em nenhuma cidade, apoiei o Márcio porque achava — e isso se mostrou correto — que ele conseguiria vencer o PT na cidade.
Eu não acreditava na continuidade do governo de Roberto Naves, porque ele estava desgastado com a direita e com a própria comunidade anapolina, e eu achava que quem fosse apoiado por ele perderia a eleição. O Márcio Corrêa conseguia se apresentar, naquele momento, como oposição ao Roberto, já que eles nunca se deram bem, e, ao migrar para o PL, as posições que ele adotou quando assumiu como deputado federal pelo MDB — alinhadas às pautas do bolsonarismo e conservadoras — nos aproximaram. Ele dizia que, se eu fosse candidato, gostaria de ser meu vice ou contar com o meu apoio, caso ele concorresse.
Eu articulei fortemente, mesmo contra a vontade de vários atores naquele momento: Wilder pensava diferente, Caiado queria outro candidato, e nós conseguimos viabilizar a filiação dele ao PL, com anuência do Daniel, com quem eu não tinha tido muitos contatos até então. Para que ele saísse do MDB, eu precisava conversar com o Daniel, e o Márcio também. O vice da chapa do Márcio, inclusive, foi do MDB.
Então, a proximidade e a cordialidade com o Daniel nasceram dessa ocasião. Depois da eleição do Márcio — e das derrotas em Goiânia e Aparecida —, o Daniel me ligou e pediu que eu intermediasse um encontro com Bolsonaro. Avaliei que não caberia recusar e fui até o Bolsonaro perguntar se ele poderia recebê-lo. Ele aceitou, e eu levei o Daniel até o presidente.
O Daniel pediu que a conversa fosse mantida em sigilo, por causa do contexto político local, e o Bolsonaro concordou. Eu não teria falado sobre esse encontro se o próprio PL não tivesse tornado isso público, o que acabou gerando a interpretação de que eu estaria articulando uma união. Naquele momento, eu acreditava que era uma possibilidade, mas não era dirigente partidário para conduzir uma articulação desse tipo. A nota acabou dando a entender que eu seria o vetor dessa união, quando, na verdade, eu estava realizando uma ação pontual.
João Paulo Alexandre – O senhor já disse que não faz parte da direção do partido, mas eu sei que a formação das chapas para deputados, de certa forma, afeta o senhor. Como estão essas formações? Quais nomes e quando elas serão anunciadas?
Eu vejo que Wilder Morais está sendo estratégico e correto ao manter esses nomes mais discretos porque, se ele divulgar durante a janela partidária, o governo vai com todas as forças sobre esses nomes para tirá-los de nós. Então, o Wilder está jogando certo: é preciso, neste momento, agir com mais discrição e, na hora adequada, todos saberão.
O que posso garantir é que o trabalho está sendo feito e que o PL terá uma chapa muito competitiva. Se conseguirmos eleger quatro deputados federais, a nossa meta é manter esse número ou chegar a cinco nomes na Câmara dos Deputados.
João Paulo Alexandre – Apesar de se apresentar como pré-candidato a deputado federal, o nome do senhor vem sendo ventilado para compor o segundo nome para a vaga ao Senado pelo partido, ao lado de Gayer. Isso pode acontecer? É um desejo do senhor?
Eu sou pré-candidato a deputado federal e estou trabalhando nessa linha de ação. Eu fui um deputado federal com um mandato muito diferente e avalio isso de maneira positiva. Fui líder do governo na Câmara no meu primeiro mandato por dois anos e, depois, líder do maior partido da Câmara, que foi o PSL, que, na época, contava com 54 deputados federais. Consegui trazer para Goiás quase R$ 400 milhões em emendas, distribuídas por cerca de 200 cidades, sem contar as pautas importantes que foram aprovadas, como o Novo Marco das Licitações, o Novo Marco do Câmbio, das Ferrovias, o Novo Marco da Cabotagem, o Auxílio Emergencial, o Pronamp, entre outros projetos.
A Câmara Federal sempre será a minha casa. Primeiro porque eu fui aprovado em um concurso que acontece a cada 12 anos, ou seja, sou concursado de lá, e voltar para a Câmara será muito importante. É um objetivo, porque sei que posso ajudar ainda mais Goiás e a direita conservadora.
Agora, sei também que o Senado da República será palco de grandes embates no próximo ano, como pautas sobre o reequilíbrio dos Poderes e até discussões sobre impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. Então, precisamos ter senadores que estejam preparados para os desafios que serão enfrentados e com disposição para atuar nessas pautas.
Na minha avaliação, a tendência natural é que um dos nomes venha da base governista e outro seja do campo do bolsonarismo, e o Gayer, hoje, é quem tem maior projeção entre nós. Ele tem uma presença forte nas redes sociais, é articulado em nível nacional com lideranças da direita e está em um momento de grande visibilidade.
João Paulo Alexandre – Qual a sua avaliação de Ronaldo Caiado na segurança pública?
O discurso dele incentiva e protege o operador de segurança pública, porque o posicionamento dele é implacável. É alguém que não abre espaço para que o bandido se sinta à vontade em Goiás, o que é bem diferente do discurso da esquerda, que, às vezes, é visto como complacente com o crime, o que, na visão de alguns, acaba estimulando a atuação desses grupos no país. Caiado é firme, afirma que aqui bandido não se cria, ou muda de profissão ou muda de Goiás. Isso estimula e empodera as forças de segurança para agir.
Não se pode negar que ele realizou muitos investimentos nas polícias, como viaturas e equipamentos, então fez uma atuação muito significativa no campo da segurança sob essa perspectiva operacional. Por outro lado, se você conversar com alguns profissionais e presidentes de entidades, há críticas ao fato de que, na visão deles, não houve a devida valorização das carreiras, como pagamento de data-base e progressões.
João Paulo Alexandre – O ministro do STF, Alexandre de Moraes, é alvo constante de críticas por parte da direita. Wilder Morais, entretanto, nunca fez uma crítica pública contra o ministro. Isso não pode pegar mal entre os eleitores conservadores do Estado?
Eu não me recordo, especificamente, de uma crítica para poder citar aqui neste momento, mas acho que já vi alguma publicação ou fala dele em relação às decisões que foram tomadas. Mas o Wilder tem uma posição diferente. Cada um tem o seu papel: há os que são mais do embate, da exposição, e outros que são mais da articulação, e isso faz parte do jogo. E eu vejo que o Wilder é mais da articulação, do suporte, da atuação e não do embate.
Como aconteceu também na campanha, em que ele foi muito cobrado pelos eleitores a se manifestar sobre essas questões, e ele se manifestava do jeito dele. Mas imagino que ele também vai ser cobrado neste momento, embora tenha visões diferentes, pois ele é pré-candidato ao Executivo e isso o coloca a tratar de pautas mais pragmáticas: o que ele vai fazer com o estado na área do comércio, turismo, infraestrutura, saúde e educação. As pautas dele serão diferentes das de quem irá para o Senado.
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