“É a economia, estúpido!” — não, não é mais, Sr. Carville
Pelo menos aparentemente, a famosa frase do estrategista da campanha democrata de 1992 (Clinton x Bush, o pai), James Carville, já não funciona mais — ou já não pode mais ser dita com a mesma ênfase. Nada que as ciências sociais até aqui davam como certezas comprovadas continua valendo como antes. A economia, seu estúpido, parece estar indo bem, obrigado. Mesmo assim…
As taxas de desemprego estão relativamente baixas (5,4%) se comparadas, por exemplo, com um país europeu como a Espanha (10,4%); são inquestionáveis os benefícios direcionados aos mais pobres, isto é, aos brasileiros que ganham até dois salários-mínimos (com a recuperação do modelo de reajuste do salário-mínimo nos moldes do primeiro mandato de Lula da Silva); o Bolsa Família, extinto em 2021 pela equipe de Bolsonaro, voltou com novas regras e aperfeiçoamentos.
O resultado é que nos dois primeiros anos do atual mandato de Lula da Silva, mais de 10 milhões de brasileiros haviam saído da condição de pobreza (renda per capita entre 500 e 700 por mês) e extrema pobreza (renda per capita de 218 reais por mês).
No início de 2026, o governo fez aprovar no Congresso a isenção do imposto de renda para os que ganham até 5 mil reais por mês — são nada menos que 80% dos que trabalham, ou seja, entre 80 e 89 milhões de pessoas diretamente beneficiadas, ou 42% dos brasileiros. (Segundo a Pnad, no final de 2024 havia entre 100 e 105 milhões de brasileiros ocupados.)
Resumindo: houve uma queda acentuada da extrema pobreza, aumento da renda média real, valorização do salário-mínimo acima da inflação, retomada do Bolsa Família, crescimento da economia com controle da inflação (o índice de janeiro até agora foi de 1,03% e o de fevereiro 0,70%), queda da taxa de desemprego, aumento do emprego formal e da massa salarial, isenção do IR para os mais pobres, redução significativa do desmatamento na Amazônia e reativação das políticas ambientais e da fiscalização.
Como disse um dia desses um comentarista na TV, ainda falta tempo demais para chegarmos ao dia da votação e qualquer previsão agora, exceto a de que Lula da Silva estará no segundo turno disputando seu quarto mandato com algum candidato da direita/ultradireita ou da ultradireita/direita, é como tentar adivinhar hoje como estará o tempo em outubro.
Dito isso, a questão se desloca para a pergunta: como é que, após todos os eventos que marcaram na política o quatriênio que se encerra em outubro (da tentativa de golpe logo no início de 2023 à condenação contundente dos golpistas pelo STF), o candidato bolsonarista, qualquer que seja ele (além do próprio filho, já confirmado), ainda se mantém no páreo e com chances reais de vencer?
O fato é que os desafios para que Lula possa conquistar seu quarto mandato são hercúleos.
O primeiro deles é precisamente que esta será a sétima eleição para presidente que disputa. Tendo vencido três (2002, 2006 e 2022), é, de longe, o político mais longevo na Presidência da República democraticamente eleito. Parte do seu eleitorado pode simplesmente estar cansada de sua figura.
Apesar de ser, pelo menos, um dos mais bem-sucedidos e dos que mais entregou ao país ao final de cada um desses mandatos, o desgaste da imagem nesses tempos de hegemonia das máquinas publicitárias sobre os programas e feitos dos governantes é inevitável.
Até entre os mais fiéis há os que se perguntam: será que não dava para mudar de canal? Mal comparando, é como se o protagonista da novela das oito (não sei se há ainda a novela das oito) fosse, por quatro anos seguidos, ano após ano (não sei tampouco se uma novela das oito dura um ano), representado pelo mesmo ator — digamos, por Antônio Fagundes ou Marcos Palmeira (me desculpe mais uma vez, mas tampouco sei se esses atores ainda atuam na novela das oito).
Isso traz à tona outra questão, e também ela não é exatamente favorável à conquista do quarto mandato. Há também o cansaço da polarização. E tanto à esquerda quanto à direita, não são poucos os que falam na terceira via, que afinal nunca aparece e pelo que está desenhado até a essa altura, se há a possibilidade de aparecer é, desgraçadamente, para a direita/ultradireita. Isso quer dizer que é Lula da Silva contra todos os outros candidatos ou pretendentes a candidato: além do filho de Bolsonaro, e com a desistência de Ratinho Jr., Romeu Zema, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.
Os toscos que são úteis às elites
A pergunta pode parecer ingênua, mas tem de ser feita: por quais razões as elites econômicas pátrias, ou ao menos parte significativa delas, acolhem e estimulam um sujeito torpe, em todos os sentidos possíveis, um mal-educado, em todos os sentidos possíveis e que, além disso, nem pela origem, nem pela atividade profissional se parece com ela ou com a imagem que projeta de si, um sujeito que somente a muito contragosto esses ricaços convidariam para os salões de suas mansões?
Jair Messias pouco tem de Trump, que não a rudeza, os modos grosseiros e a arrogância. O mesmo pode ser dito dos generais da ditadura, alguns tão rudimentares quanto ele, como João Figueiredo, já que nunca ultrapassou a patente de capitão (para os que não se interessam pela caserna, acima da formação para capitão e muito antes dos generais há ainda major, tenente-coronel e coronel, e abaixo tenente, subtenente, sargento e praça). Muito pouco tem também de um JK, Tancredo Neves, José Sarney ou Fernando Henrique Cardoso.
No entanto, não é um caso inédito na história. Não é raro que as elites aqui e ali convidem um serviçal brutamontes para arrumar a casa.
Benito Mussolini era um matuto, um simplório interiorano da Itália de finais do século XIX. Adolf Hitler, da mesma forma que o italiano, sempre esteve longe de pertencer às classes altas da Alemanha. Seu pai era um funcionário da alfândega, o que, do ponto de vista das hierarquias sociais, o situava muito pouco acima da base da pirâmide.
Mas na exata medida em que se mostraram capazes de aglutinar as massas em torno de suas personas e carismas e de aparecerem como seres iluminados, foram se tornando úteis — às elites pouco importava que esses personagens conduzissem o país à destruição e à morte de milhões de pessoas.
A rã, o escorpião e a flutuação das elites
Para quem não se lembra da fábula do escorpião e da rã, ei-la:
Um escorpião chega à beira de um rio e encontra uma rã.
Ele pede: — Rã, você pode me levar nas suas costas para atravessar o rio? A rã responde: — Claro que não! Se eu fizer isso, você me pica e eu morro.
O escorpião argumenta: — Mas isso não faria sentido! Se eu te picar, você morre e eu também me afogo.
A rã pensa um pouco e concorda: — Está bem, suba. No meio do rio, de repente, o escorpião dá uma ferroada na rã. Sentindo o veneno agir, a rã pergunta: — Por quê? Agora nós dois vamos morrer! E o escorpião responde: — Eu não pude evitar… é da minha natureza.
À diferença do escorpião, no entanto, as elites econômicas sempre encontram uma maneira de flutuar.
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