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A “ameaça terrorista” como pretexto: por que a ofensiva de Trump contra PCC e CV é política

A proposta do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais não pode ser analisada apenas sob a ótica da segurança pública.

A retórica é de combate ao narcotráfico, mas o histórico da política externa norte-americana indica que esse tipo de classificação costuma ter objetivos políticos e geopolíticos muito mais amplos. Nos últimos anos, Washington ampliou o uso da categoria “terrorismo” para enquadrar grupos criminosos no hemisfério ocidental.

Essa classificação abre caminho para sanções econômicas, operações de inteligência e até ações militares fora do território dos Estados Unidos. Ou seja: não se trata apenas de semântica jurídica. Trata-se de poder.

O caso mais recente que ajuda a entender essa lógica ocorreu na Venezuela. O governo americano classificou o chamado Cartel de los Soles, supostamente ligado ao governo de Nicolás Maduro, como organização terrorista.

A medida foi apresentada como parte da guerra contra o narcotráfico, mas também ampliou a capacidade de Washington de agir contra o regime venezuelano. Na sequência, os Estados Unidos intensificaram sua presença militar na região e chegaram a realizar ataques contra alvos ligados ao tráfico.

Mais recentemente, uma operação militar norte-americana no país terminou com a captura de Maduro sob acusações de narcoterrorismo. Depois, passou a controlar o petróleo daquele país.

Para críticos da política externa americana, o padrão é familiar. Primeiro se constrói a narrativa de ameaça, com terrorismo, drogas ou defesa da democracia, e depois se legitima a intervenção.

Um roteiro antigo no Oriente Médio

Esse roteiro não começou na América Latina. Ele é parte de uma estratégia mais antiga. Após os atentados de 2001, os Estados Unidos lançaram a chamada “guerra ao terror”, justificando intervenções militares em diversos países do Oriente Médio.

O conceito de terrorismo passou a ser usado de forma ampla e controversa, muitas vezes definido unilateralmente por Washington e seus aliados. A invasão do Iraque em 2003 é um exemplo clássico. Foi justificada como parte do combate ao terrorismo e da defesa da democracia.

Anos depois, analistas e especialistas apontaram que a intervenção acabou contribuindo para a instabilidade regional e para o surgimento de novos grupos extremistas. Por isso, quando a Casa Branca tenta enquadrar facções brasileiras na mesma lógica, é inevitável lembrar desses precedentes.

Outro ponto que enfraquece o discurso americano é a própria realidade interna dos Estados Unidos. Se o argumento central é que organizações violentas representam ameaça à segurança nacional, surge uma pergunta inevitável.

Por que a potência que quer combater o crime no Brasil não conseguiu resolver problemas semelhantes dentro de casa? Cidades americanas como Detroit, Chicago, Baltimore ou Philadelphia convivem há décadas com altos índices de violência urbana.

O país também enfrenta episódios recorrentes de massacres em escolas, ataques armados e atentados contra autoridades, fenômenos que se tornaram parte do debate político interno americano. Nada disso significa que o Brasil esteja em posição confortável para criticar.

O país também vive uma grave crise de segurança pública. Mas a contradição permanece: um país que não conseguiu eliminar sua própria violência pretende se colocar como tutor da segurança de outros.

O problema brasileiro exige solução brasileira

Isso não significa ignorar a gravidade do crime organizado no Brasil. O PCC e o CV são organizações poderosas, com atuação internacional e influência crescente sobre o tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

O combate a essas facções é urgente. Exige inteligência policial, cooperação internacional, reformas institucionais e coordenação entre estados e União. Mas uma coisa é cooperação. Outra, muito diferente, é intervenção.

Permitir que potências estrangeiras definam unilateralmente quem são os inimigos e como combatê-los cria um precedente perigoso. A soberania nacional não é um detalhe diplomático, é um princípio fundamental do direito internacional.

Se o Brasil precisa enfrentar suas facções criminosas, deve fazê-lo com suas próprias instituições, suas próprias estratégias e dentro de suas próprias leis.

Porque a história mostra que, quando grandes potências dizem estar levando segurança ou democracia a outros países, o resultado raramente é tão simples quanto o discurso promete.

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