Haley Margon: parte o homem, fica o legado
Luiz Carlos Bordoni
Especial para o Jornal Opção
Haley Margon Vaz, que morreu aos 95 anos, pertence àquela categoria rara de homens públicos que não se impõem pelo barulho, mas pelo exemplo. Sua alma — como o cometa que leva o seu nome — não surge todos os dias. Demora a aparecer. E, quando passa, ilumina.
Homem simples, de hábitos comuns, foi um líder silencioso. Austero sem ser áspero. Rigoroso sem perder a humanidade. Tinha a sensatez como parceira permanente e a gentileza estampada no sorriso discreto, quase tímido, de quem nunca precisou elevar a voz para ser ouvido.
Foi, sem exagero, um dos maiores prefeitos da história de Catalão. Sob sua liderança, a cidade deixou de improvisar o futuro e passou a construí-lo. Lançou os alicerces da modernidade quando poucos conseguiam enxergá-la. Poderia ter sido governador de Goiás — e o teria sido, não lhe faltassem méritos, mas oportunidade. E, dada sua civilidade, não era agressivo o suficiente para cotovelar aliados.;
Deputado federal pós-constituinte, colaborou decisivamente com Iris Rezende em seu segundo mandato à frente do governo de Goiás, conduzindo com rigor e responsabilidade a área das Finanças. Antes disso, já havia prestado relevantes serviços ao país no Ministério da Agricultura, durante o governo de José Sarney. Ele era, no dizer de Iris Rezende, o homem-eficiência — aquele que preferia levar ao seu chefe, não problemas, e sim soluções.
Eleito prefeito em 1982, em um tempo de voto vinculado e mandato de seis anos, transformou Catalão em um verdadeiro canteiro de obras. Com respeito institucional, pediu licença ao ex-prefeito Paulo Hummel para substituir os bloquetes pelo asfalto. Pavimentou bairros e distritos, implantou uma política consistente de moradias populares e confiou ao então jovem Velomar Rios a missão de gerenciar esse programa social — visão de gestor que forma sucessores.
Em conversa recente, arrisquei compará-lo a Winston Churchill (e sei que, sem vaidade, não apreciava isto; era grande, à sua maneira). O estadista que ajudou a salvar a Europa do nazismo, mas foi derrotado nas urnas após a guerra. Haley viveu algo semelhante. Preparou a cidade para o futuro, mas, em 1996, foi surpreendido por uma derrota eleitoral que a história jamais corrigiu, mas saberá compreender. O estadista foi derrotado por um não-estadista.
Parte o homem. Fica o exemplo. Fica a obra. Fica o legado de quem fez da política um exercício de responsabilidade, silêncio e grandeza. De alguma maneira, Haley permanece vivo dada sua história de feitos.
Haley Margon não se despede. Ele permanece. Na cidade que ajudou a construir (e, claro, no Estado). Na história que ajudou a escrever.
Luiz Carlos Bordoni, jornalista e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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