28 de janeiro e o manual para um mundo que não encaixa
Faltam 337 dias para acabar o ano, e eu tenho um apego especial por colagens de coincidências históricas. Gosto de como os fatos se interligam numa grande dança cósmica, onde o tempo — esse que a gente insiste em medir — não manda tanto assim. As imagens se sobrepõem em camadas, se rearranjam, obedientes mais ao meu olhar do que a qualquer lógica universal. Admito, é tudo meio caótico e arbitrário. Mas é meu jeitinho. Espero que você não se incomode.
Dito isso, sempre achei curioso como a humanidade tenta se comportar como uma criança organizada demais. Sim, elas existem. Ficamos mais confortáveis quando acreditamos que o mundo pode ser montado peça por peça, seguindo instruções claras, com começo, meio e fim. Tudo medido, catalogado, esquadrinhado e encaixado em uma grande e perfeita maquete. Talvez por isso o dia 28 de janeiro seja tão fascinante: ele reúne pessoas, ideias e tragédias que tentaram, cada uma à sua maneira, dar ritmo ao caos. Nem sempre deu certo — aliás, quase nunca.
Em 28 de janeiro de 1958, a empresa dinamarquesa Lego patenteou seus famosos bloquinhos, todos compatíveis entre si até hoje. Pronto, o problema fundamental da humanidade estava resolvido: como fazer uma coisa se encaixar na outra sem cair. Como se dissesse às crianças do mundo que, com paciência e método, tudo pode ser construído. Basta seguir o desenho da caixa ou confiar num manual decente.
Curioso é pensar em caos e ordem como categorias opostas, como territórios inimigos, e não como espaços de confluência. Curioso e limitador. Em outro 28 de janeiro, em 1912, nasceu nos Estados Unidos um sujeito que passaria a vida inteira desmentindo essa lógica. Para Jackson Pollock, havia ritmo no caos. Seu expressionismo abstrato dispensava cavaletes, pincéis e manuais. A tinta caía, escorria, se encontrava, e ali surgia a ordem estética que ele buscava. O método era justamente abrir mão do método. Ainda assim, ou talvez por isso, Pollock morreu cedo, aos 44 anos, num acidente de carro. Caótico também fora da tela.
Direção, bebida e acidente. Um ciclo perfeitamente previsível. Não precisamos da Lego para empilhar os tijolinhos desse cenário. Mas é justamente aí que os ventos da aleatoriedade fazem a curva. Em 28 de janeiro de 1941, o Brasil resolveu tentar algo ambicioso: organizar o trânsito. Nascia o primeiro Código Nacional de Trânsito. Placas, regras, infrações. Tudo muito bem pensado, como se bastasse escrever normas para que o caos se comportasse. Não que não tenha sido importante. No final de 2025, o governo federal aprovou uma lei que simplifica o acesso à Carteira Nacional de Habilitação. Ótimo para quem precisa pagar menos. Porém, não tem manual capaz de domesticar a imprudência, a pressa e a velha convicção de que regra boa é sempre a que vale para os outros.
FOTO DE ZORA NEALE HURSTON
Numa sombria quinta-feira, 28 de janeiro de 1960, morria Zora Neale Hurston, escritora, antropóloga e uma das vozes centrais do movimento que ficou conhecido como Renascimento do Harlem, alguém que transformou a experiência de ser mulher negra nos Estados Unidos em literatura e memória. Zora é autora de “Seus Olhos Viam Deus”, um de seus livros mais lidos no Brasil.
Zora Neale Hurstron sabia de algo fundamental: quando as regras falham e as estruturas desmoronam, são as histórias que impedem tudo de virar silêncio. Sem narrativa, os tijolos da história simplesmente não se encaixam.
Mas chega de falar do passado tão distante. Vamos fazer um corte para o dia 26 de dezembro de 2025, quando um ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal tentou embarcar no Paraguai rumo a El Salvador usando documentos falsos. Condenado a mais de 24 anos de prisão por participar de uma tentativa de golpe de Estado — sim, mais uma —, tudo indica que acreditou que a realidade funcionava como um brinquedo mal montado: troca-se uma peça aqui, um nome ali, uma nacionalidade acolá e pronto, vida nova. Não funcionou. Acabou escoltado de volta a Brasília, com destino ao Presídio da Papuda. O manual, dessa vez, era outro.
No fundo, a vida é um grande 28 de janeiro sempre se repetindo. A Lego promete encaixe, o Código promete ordem, os documentos falsos prometem fuga e nada disso se sustenta por muito tempo. O caos insiste em escorrer pela tela como tinta de Pollock e sobreviver em histórias como as de Zora. No fim das contas, talvez o problema nunca tenha sido a falta de regras ou de peças para montar, mas essa nossa mania infantil de acreditar que o mundo vem com manual. Ele não vem.
O post 28 de janeiro e o manual para um mundo que não encaixa apareceu primeiro em Jornal Opção.