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Gregório de Matos – O Boca do Inferno

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima

“Eu sou aquele,
que os passados anos
cantei na minha lira
maldizente torpezas do Brasil,
vícios, e enganos.”

Gregório de Matos


“Não existe pecado do lado de baixo do Equador.
Vamos fazer um pecado, safado,
debaixo do meu cobertor.

[…]

Quando é lição de esculacho,
olhaí, sai debaixo, que sou professor.”

Chico Buarque e Ruy Guerra

A SÁTIRA DE GREGÓRIO DE MATOS – O BOCA DO INFERNO

Cultor qualificado de uma arte de grande complexidade, Gregório de Matos realizou poemas marcantes, seja na linha cultista, seja na conceptista, chegando ao ponto de adaptar em português, com grande êxito, poemas do maior mestre da lírica barroca – o espanhol Luiz de Góngora – e do grande modelo barroco da sátira, Quevedo, também espanhol.

Sua poesia não é, contudo, destituída de originalidade, pois, além das convenções barrocas de lirismo e religiosidade que cultivou, foi capaz de utilizar artisticamente a linguagem coloquial brasileira (o seu “português mestiço”) e de produzir um retrato satírico, vivo e saboroso do Brasil no século XVII.

O poeta baiano foi a primeira grande voz da poesia brasileira, sendo considerado seu fundador.

A VIDA DO “POETA MALDITO”

Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia, em 1636, filho de família abastada. Estudou com os jesuítas em Salvador e, aos quatorze anos, foi para Portugal, onde se formou em Direito pela Universidade de Coimbra.

Casou-se, tornou-se juiz e permaneceu na metrópole até 1681. Viúvo, retornou ao Brasil.

Investido no cargo de Tesoureiro Geral da Sé, em 1683, foi destituído pouco tempo depois por pressão do Arcebispo de Salvador, contrário aos seus hábitos mundanos.

Em Salvador, passou a sobreviver precariamente, advogando e sem recursos. Tornou-se boêmio, malvestido, percorrendo os engenhos do Recôncavo com a viola ao lado, tocando lundus.

Sofreu perseguições até ser degredado para Angola, em 1694. Retornou ao Brasil no ano seguinte, sendo obrigado a fixar-se no Recife, onde morreu em 26 de novembro de 1695.

Em vida, sua obra permaneceu inédita, o que levanta dúvidas sobre a autoria de alguns textos. Sua obra completa só veio a público entre 1923 e 1933, organizada por Afrânio Peixoto. Em 1969, James Amado organizou a primeira edição sem cortes.

O ESTILO “BOCA DO INFERNO”

Gregório de Matos recebeu o cognome de “Boca do Inferno” devido à virulência de suas sátiras. Sua fama de irreverente e malcriado marcou seu nome, fazendo com que sua poesia satírica fosse mais conhecida que a lírica.

Foi o maior satírico da literatura brasileira em versos e é considerado introdutor da linguagem coloquial, popular e mestiça na poesia do Brasil.

O poema “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus” exemplifica o uso de uma linguagem mestiça, mesclando português, tupi e africano, compondo um retrato satírico da fidalguia improvisada do Recôncavo.

(segue o poema, mantido integralmente, com os versos já apresentados no original)

A LINGUAGEM MESTIÇA E A CRÍTICA SOCIAL

Os vocábulos indígenas refletem a condição de bilinguismo no Brasil desde o início da colonização. Gregório de Matos abandona a linguagem clássica para explorar a fala popular, antecipando debates que seriam retomados por autores como Lima Barreto.

O contraste entre a forma clássica do soneto e a língua mestiça intensifica o efeito satírico e reforça a crítica social.

A poesia de Gregório é marcada por gírias, termos chulos e expressões do cotidiano, inaugurando uma linha de protesto e consciência nacional.

O GROTESCO, A CARICATURA E O BARROCO

Gregório de Matos explorou com requinte a estética barroca, privilegiando o feio, o grotesco e o macabro. Seus retratos são caricaturas hiperbólicas que revelam a corrupção moral e social da época.

Governadores, padres e autoridades são descritos de forma grotesca, animalizada, despertando o riso e o escárnio.

A Bahia é apresentada como uma cidade à beira do colapso moral e material, marcada pela fome, corrupção e hipocrisia religiosa.

O MUNDO ÀS AVESSAS

O poeta apresenta uma visão pessimista do mundo, percebido como insano e impossível de ser corrigido. Para sobreviver, o poeta adere ao ludismo, à ironia e à sátira.

A linguagem obscena e libertina não é gratuita, mas instrumento de desmascaramento social.

O riso carnavalesco destrói o sério, dissolve hierarquias e revela verdades interditas.

A CARICATURA DO PODER

Governadores como Antônio de Sousa Meneses e Antônio Luís da Câmara Coutinho foram alvos de sátiras ferozes. Seus retratos exagerados e monstruosos funcionam como estratégia de deslegitimação do poder.

Essa postura levou o poeta à perseguição, prisão e degredo.

Mesmo no exílio, Gregório manteve sua verve crítica, despedindo-se da Bahia com ironia e desprezo.

A LINGUAGEM LIBERTINA

A poesia fescenina de Gregório de Matos herda o espírito das cantigas de escárnio e maldizer. Sua linguagem obscena, escatológica e provocadora rompe tabus e ecoa a voz popular.

Nenhum outro poeta brasileiro do período demonstrou tamanha liberdade verbal e coragem expressiva.

A MULHER E O AMOR

O amor na lírica gregoriana assume formas contraditórias: ora platônico, ora carnal. O poeta celebra mulheres idealizadas e mulheres reais, sobretudo negras e mulatas.

Prevalece o erotismo, o sensualismo e o paradoxo barroco, em diálogo com Camões, Petrarca e a tradição renascentista.

O BARROCO E O BRASIL COLÔNIA

O Barroco surge como expressão da crise espiritual e cultural da Contrarreforma, refletindo o conflito entre antropocentrismo e teocentrismo.

No Brasil, o Barroco desenvolve-se em um contexto adverso, marcado pela exploração colonial, censura e ausência de instituições culturais.

Apesar disso, Gregório de Matos impõe-se como o primeiro grande poeta brasileiro.

CONCLUSÃO

Gregório de Matos é o mais importante poeta do Barroco brasileiro. Sua obra reflete o dualismo da época e denuncia os vícios humanos com linguagem ferina e irreverente.

Sua poesia satírica, lírica, religiosa e libertina constrói um retrato universal da condição humana e da sociedade colonial.

A lira do “Boca do Inferno” canta as torpezas do Brasil e permanece viva, atual e inesquecível na história da literatura brasileira.

Maria de Fátima Gonçalves Lima

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL)

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