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Cerrado em alerta na pesquisa da Nature: entre a perda silenciosa e a invisibilidade política

O Cerrado amanhece todos os dias como sempre esteve: vasto, aparentemente resistente, verde em alguns trechos, seco em outros. Mas essa paisagem esconde um colapso em curso. Enquanto máquinas avançam, rios perdem força e comunidades tradicionais lutam para existir, o bioma que sustenta as águas do Brasil se aproxima de um ponto de não retorno.

É o que revela a pesquisaThe Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot”, publicada na revista científica Nature Conservation, e é o que confirma a professora Josana de Castro Peixoto, doutora em Biologia, em entrevista ao Jornal Opção.

Segundo o estudo, mais de 55% da vegetação nativa do Cerrado já foi destruída, tornando-o o ecodomínio brasileiro que mais perdeu cobertura vegetal nas últimas décadas. Para a pesquisadora, no entanto, o problema vai além do desmatamento: trata-se de uma crise socioambiental, cultural e institucional.

A crise do Cerrado não é só ambiental. Ela é territorial, cultural, institucional e social. É uma crise sistêmica, construída ao longo de décadas

Um bioma em crise sistêmica

A pesquisa da Nature Conservation descreve o Cerrado como um ecodomínio sob pressão contínua, resultado de décadas de conversão territorial para agricultura, pecuária, mineração, urbanização e infraestrutura.

Josana reforça que essa degradação não é recente nem pontual. “O Cerrado foi ocupado sem planejamento ecológico de longo prazo. Cada ciclo econômico deixou marcas que se acumulam até hoje.”

Um dos pontos centrais do estudo é a fragilidade da legislação ambiental. O Código Florestal estabelece percentuais mínimos de Reserva Legal que, embora legais, são insuficientes para manter a funcionalidade ecológica do Cerrado.

“Cumprir a lei, como o Estado de Goiás faz, não significa conservar. A lei permite perdas que ecologicamente são insustentáveis”, explica Josana.

A pesquisa aponta que essa lógica legal cria uma falsa sensação de proteção, enquanto a degradação continua de forma regularizada.

Grande parte da devastação ocorre longe dos olhos da sociedade. Isso porque o Cerrado não é apenas floresta. Ele é um mosaico de campos naturais, savanas e formações rupestres, muitas delas compostas por vegetação baixa.

A sociedade olha essas áreas e chama de mato. Mas é justamente ali que está uma biodiversidade altíssima, com espécies únicas e funções ecológicas estratégicas

O estudo destaca que esses ecossistemas estão entre os mais ameaçados e menos protegidos do Brasil.

Perda de vegetação no Cerrado | Foto: Nature

Goiás: redução oficial, perda real

Apesar de anúncios oficiais sobre redução recente do desmatamento, os dados acumulados revelam um cenário distinto. Entre 1985 e 2023, o Cerrado perdeu cerca de 380 mil km² de vegetação nativa, com forte impacto em Goiás.

Segundo Josana, isso ocorre porque:

“Campos naturais e cerrados rupestres são tratados como áreas de baixo valor ambiental, mesmo concentrando endemismo e funções ecológicas essenciais.”

Um dos biomas mais ricos em fauna do planeta

Além da flora, o Cerrado abriga uma das maiores diversidades animais do mundo, com mais de 3.200 espécies de vertebrados, incluindo mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes.

A figura publicada no estudo mostra a proporção de espécies ameaçadas por grupo biológico:

  • Mamíferos: 11,3% das espécies ameaçadas
  • Aves: 5,09%
  • Anfíbios: 5,14%
  • Répteis: 4,77%
  • Peixes: 2,5%
  • Plantas: 8,16%
  • Invertebrados: 0,5% (subestimado)

Segundo os autores, o número aparentemente baixo de invertebrados reflete falta de dados, não segurança ecológica.

“As extinções mais perigosas são as silenciosas. Polinizadores, insetos, pequenos vertebrados estão desaparecendo sem sequer serem registrados”, alerta Josana.

Diversidade animal no Cerrado | Foto: Nature

Cerrado como território vivo

A professora reforça que o Cerrado deve ser entendido como território, não apenas como bioma.

“Pensar o Cerrado é pensar as pessoas que vivem nele. Quando se perde território, perde-se cultura, identidade e memória.”

A pesquisa científica reconhece que a conservação do Cerrado passa pela proteção de Terras Indígenas e comunidades tradicionais.

O Estado de Goiás é lugar de diversidade cultural e histórica, sendo território de três povos indígenas reconhecidos: os Avá-Canoeiro, os Iny-Karajá e os Tapuia do Carretão, segundo o Observatório dos Povos Indígenas de Goiás (OPIG). Cada um deles mantém vivas suas línguas, tradições e modos próprios de relação com o ambiente, contribuindo de forma singular para o patrimônio sociocultural goiano.

Apesar de serem historicamente responsáveis pela conservação, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e assentados seguem fora dos espaços de poder.

“Eles quase não aparecem nos comitês de bacias, nos conselhos ambientais, nas políticas públicas. Ainda são invisibilizados”, afirma Josana.

Além dos povos indígenas, comunidades tradicionais como quilombolas, ribeirinhos, geraizeiros e assentados rurais também enfrentam um processo contínuo de perda territorial. No nordeste goiano, comunidades quilombolas convivem com a expansão de monoculturas. Já ao longo do Rio Araguaia, ribeirinhos relatam mudanças profundas na paisagem, na pesca e na qualidade da água.

“O que estamos vivendo não é apenas perda de biodiversidade. É uma erosão cultural. Quando essas comunidades perdem território, elas perdem tradição, memória e identidade”, diz Josana.

A pesquisadora destaca que, embora tenha havido avanços com o acesso de indígenas e quilombolas à universidade, a representatividade política ainda é mínima. “Houve melhorias, mas elas ainda representam um percentual muito pequeno. A presença deles nos espaços de poder continua sendo exceção.”

Segundo ela, essa exclusão compromete a construção de políticas públicas eficazes. “Não dá para pensar conservação do Cerrado sem ouvir quem sempre viveu e cuidou desse território. A crise ambiental é também uma crise de governança.”

Crise hídrica que nasce no Cerrado

O estudo lembra que o Cerrado é o berço de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil, incluindo São Francisco, Tocantins-Araguaia e Paraná.

Josana observa os impactos diretamente no Rio Araguaia:

“Os rios estão com menor vazão, nascentes estão desaparecendo e a qualidade da água piorou muito. Isso já é perceptível para quem vive ali.”

Desenvolvimento e conservação: um falso conflito

Nem a pesquisadora nem o estudo apontam um único vilão. A degradação resulta de um modelo histórico de ocupação, que passou pela mineração, pecuária, agricultura e hoje se consolida na agroindústria.

“O problema não é produzir, é produzir ignorando os limites ecológicos”, diz Josana.

Josana de Castro Peixoto, doutora em Biologia | Foto: Arquivo

A Nature Conservation alerta que manter esse modelo compromete a segurança hídrica, alimentar e climática do país.

Futuro do Cerrado: colapso ou mudança de rota

Se o ritmo atual continuar, o cenário projetado é de:

  • perda de rios e aquíferos
  • extinções silenciosas
  • redução de polinizadores
  • conflitos territoriais

“O Cerrado pode perder sua funcionalidade ecológica. E isso afeta todo o Brasil”, alerta Josana.

Ainda assim, o estudo aponta caminhos: ampliação de áreas protegidas, fortalecimento da ciência, participação de comunidades tradicionais e reconhecimento do Cerrado como ativo climático global.

O Cerrado sustenta a água que corre nos rios, o solo que produz alimentos e o clima que regula o país.
Como resume a professora Josana de Castro Peixoto: “O Cerrado não pode apenas sobreviver. Ele sustenta o Brasil.”

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