Sargento Póvoa: do discurso “moralista” na política à suspeita de chefiar quadrilha de agiotagem e tortura em Luziânia
Por enquanto, ele se apresenta nos registros públicos como policial militar e ex-candidato a vereador pelo PL. Nas investigações da Polícia Civil de Goiás, porém, o sargento Hebert Francisco Póvoa — o “Sargento Póvoa” — aparece em outro papel: o de suposto líder de uma organização criminosa especializada em agiotagem, extorsão e violência contra devedores em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal.
Na sexta-feira, 28, a Operação Mão de Ferro, deflagrada pelo Grupo de Investigação de Homicídios (GIH) da 5ª Delegacia Regional de Polícia (DRP), prendeu o sargento, outros dois policiais militares, dois civis e a advogada Tatiane Meireles, que é esposa de Póvoa. A investigação aponta que o grupo agia de forma estruturada para emprestar dinheiro a juros abusivos e cobrar as dívidas com ameaças, tortura e exposição das vítimas a humilhações filmadas em vídeo.
Segundo a Polícia Civil, em apenas dois anos o esquema teria movimentado mais de R$ 7 milhões, valor já bloqueado pela Justiça a pedido dos investigadores.
O policial que virou candidato “anticorrupção”
Hebert Francisco Póvoa é sargento da Polícia Militar de Goiás, lotado em Luziânia. Nas eleições municipais de 2024, ele disputou uma vaga na Câmara Municipal pelo PL, apresentando-se ao eleitorado com discurso moralista, de combate à criminalidade e à corrupção.
Reportagem do Jornal Opção lembra que, durante a campanha, Póvoa chegou a circular pela cidade em trio elétrico, atacando adversários políticos, inclusive o então prefeito e seus familiares, em falas de forte tom acusatório.
Apesar de não ter sido eleito, o sargento consolidou sua imagem pública como uma liderança ligada à pauta de “lei e ordem”. Agora, é justamente a suspeita de ter comandado um esquema criminoso violento que coloca em xeque essa narrativa
Histórico de polêmicas e processos
As informações que emergem após a Operação Mão de Ferro mostram que o nome de Póvoa não aparece pela primeira vez nos arquivos da Justiça. O sargento já havia sido denunciado pelo Ministério Público de Goiás em 2016, por tortura mediante omissão, em um caso ocorrido no Ciops de Valparaíso.
Na esfera eleitoral, ele foi condenado por litigância de má-fé ao usar informações falsas contra adversários durante a campanha — conduta que, segundo a decisão, extrapolou os limites do embate político e tentou manipular o eleitor a partir de narrativas inverídicas.
Ainda conforme a mesma reportagem, a Polícia Militar informou que Póvoa estava afastado das atividades de rua por motivos psicológicos e havia retornado recentemente ao serviço administrativo.
Como funcionaria o esquema de agiotagem e extorsão
A Operação Mão de Ferro foi deflagrada em 28 de novembro, em Luziânia, após meses de apuração do GIH da 5ª DRP. A Polícia Civil classifica o grupo como organização criminosa voltada à cobrança de dívidas com juros abusivos, extorsão e violência.
Segundo as investigações, o núcleo liderado por Póvoa oferecia dinheiro a quem estivesse em situação de aperto financeiro — muitas vezes sem garantias formais — e, depois, submetia devedores à cobrança com ameaças, agressões físicas e exposição humilhante, sempre que as dívidas atrasavam.
Vídeos anexados ao inquérito mostram cenas de brutalidade. Em uma das gravações, Póvoa aparece desferindo chutes contra um homem caído no chão, enquanto Tatiane Meireles o atinge com um taco de beisebol e grita para que a vítima levante os braços.
De acordo com a Polícia Civil, a advogada Tatiane Meireles, além de supostamente participar das agressões, oferecia suporte jurídico ao grupo, ajudando a “blindar” o esquema e dar aparência de legalidade às cobranças.
Operação Mão de Ferro: prisões, buscas e bloqueio de R$ 7 milhões
A ação policial cumpriu mais de dez mandados de busca e apreensão e nove de prisão preventiva. Entre os presos estão três policiais militares, civis ligados ao grupo e a advogada.
A Polícia Civil afirma que, em dois anos, o esquema movimentou mais de R$ 7 milhões, valor bloqueado das contas dos investigados por ordem da Justiça, com o objetivo de reparar danos e enfraquecer a estrutura financeira da organização.
Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidas armas e cerca de R$ 10 mil em espécie.
A investigação trabalha, nesse momento, com ao menos quatro frentes de apuração:
- agiotagem com juros abusivos,
- extorsão e extorsão mediante sequestro,
- tortura,
- e possível lavagem de dinheiro.
Reação das instituições
Em nota, a Polícia Militar de Goiás declarou que “não compactua com desvios de conduta” e que já adotou as medidas administrativas cabíveis, reforçando o compromisso com a ética, a legalidade e a transparência.
A OAB-GO, por sua vez, afastou preventivamente Tatiane Meireles da presidência da Comissão de Direitos Humanos da subseção de Luziânia e informou que instaurará procedimento ético-disciplinar para apurar o caso, classificando a conduta relatada como “absolutamente incompatível” com a advocacia.
As defesas dos investigados ainda não se manifestaram publicamente. O Jornal Opção relata que não conseguiu localizar advogados de Póvoa e dos demais presos para comentar as acusações
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